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André G

American Film Institute (AFI) escolhe o seu top 10 para 2018

 

Depois da National Board of Review (NBR), foi a vez da American Film Institute (AFI) revelar a sua lista sem ordem dos seus 10 filmes favoritos de 2018. 

De fora, ficou, por questões de eligibilidade, Roma de Alfonso Cuáron - que recebeu ainda assim um prémio especial, o que prova ser mais um bom sinal de apoio dentro da indústria ao filme. 

Sem questões de eligibilidade para se justificar, filmes como First Man de Damien Chazelle e Widows de Steve McQueen ficam assim "debaixo de fogo", tendo em conta que este ranking costuma servir (juntamente com os prémios atribuídos pelos produtores, os Producers Guild of America) de bom barómetro para os nomeados para o Oscar de Melhor Filme. 

Eis então o top 10 de filmes: 

Blackkklansman
Black Panther (foto acima)
Eighth Grade
If Beale Street Could Talk
The Favourite
First Reformed
Green Book
Mary Poppins Returns
A Quiet Place
A Star Is Born


Top 10 programas de TV: 

The Americans
The Assassination of Gianni Versace: American crime story
Atlanta
Barry
Better Call Saul
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel
Pose
Succession
This Is Us


AFI Special Award
Roma

«A Private War» (Uma Guerra Pessoal) por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Biopics de artistas temos resmas deles, por vezes vários para aqueles que marcaram efetivamente a sua era. Filmes de guerras idem aspas. Então e os "artistas" que pretendem reportar os horrores da guerra?  

A Private War (Uma Guerra Pessoal) tenta colmatar essa relativa deficiência contando a história verdadeira de um espírito rebelde e ultimamente solitário na sua rebeldia: Marie Colvin. É um filme que respeita as memórias da jornalista logo na sua duplicidade do título... é que Colvin trava também ela uma guerra privada consigo mesma ao mesmo tempo em que se mete em confrontos onde: a) morrer ou ficar com marcas físicas irreparáveis é sempre uma opção - como efetivamente aconteceu, em momentos separados; b) interesses privados/pessoais metem-se sempre pelo meio e à frente de casualidades civis. 

O formato da narrativa é ainda assim demasiado comportado para as escolhas punk da repórter. Este fica-se, em momentos-chave, por uma réplica de reportagem de guerra para mascarar o "bê-áb-á" da biografia cinematográfica, com trunfos ainda assim na veracidade que atinge (a cena da remoção de cadáveres sendo particularmente um ponto tão arrepiante para as personagens como para o espectador), mas rendendo-se ultimamente à preguiçosa (e insegura?) comparação com a realidade nos seus últimos frames, da colagem entre a personagem e a figura real, um dispositivo claramente tão cansativo como preguiçoso.  

Haja ou não proximidade exímia entre a imitação e a figura real, o que muitos biopics falham é ir precisamente para lá deste acessório, da semelhança física, e tentar, paradoxalmente, conferir vida a uma vida real. A Private War é, felizmente, pelo menos nesse aspecto, um convite à verdade que está por detrás da jornalista, para além da verdade jornalística (tema central, de um romantismo que parece vir de outros tempos mais confiantes). É um filme que segue à pala de uma atriz (conforme eu e o meu colega Hugo Gomes apelidámos): Rosemund Pike, tentando assim revelar outra sua faceta para além daquele papel que dificilmente será substituído - o de Amazing Amy por Gone Girl. É nas suas contradições confessáveis num discurso particularmente emocional (um belo "clip para Oscar", caso a distribuidora inexperiente consiga daqui um milagre), e inferidos ao longo do restante tempo, que temos o humanismo desejado,  e não só na mudança de registo de voz ou da performance "só com um olho". Jamie Dornan e Stanley Tucci, em papéis de suporte (na guerra e em casa), são sólidos, o primeiro a desamarrar-se bem da imagem de 50 Shades of Grey, o segundo claramente mais próximo a outros papéis que representou no passado.  

Se devíamos pedir mais do filme em si, que um mero veículo para uma atriz brilhar na sua autenticidade, para que o memorial ficasse mais completo? Sem dúvida. Ainda assim, pela sua verdade que nos tenta mostrar, pelo que acredita em termos jornalísticos e humanistas, e porque se conseguiu ainda assim moderar outros excessos mais facilitistas (do lado do "humanismo liberal"), é um filme minimamente estimável. 


André Gonçalves

Empire escolhe «Avengers: Infinity War» para filme do ano

E com as primeiras nomeações aos prémios da indústria cinematográfica, também as publicações dedicadas à sétima arte aproveitam para iniciar a divulgação dos tops de melhores filmes a estrear no ano. 

Seguimos desta feita com a revista Empire, e com um #1 que promete já desencandear uma certa controvérsia: Avengers: Infinity War, blockbuster da Marvel, foi o filme escolhido pelos editores/críticos aí residentes. 

Esta é, como expectável, uma lista mais comercial e anglosaxónica que outras magazines mais "eruditas" (como Cahiers du Cinema, por exemplo). A completar o top 10, temos outros blockbusters, como o êxito sensação A Quiet Place, Mission: Impossible -  Fallout, Black Panther e A Star is Born.  

Confiram o top completo abaixo (top 20, de acordo com estreias no Reino Unido): 

1. Avengers: Infinity War
2. Mission: Impossible - Fallout
3. A Quiet Place
4. Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
5. Black Panther
6. First Man
7. Lady Bird
8. A Star is Born
9. Phantom Thread
10. BlacKkKlansman
11. Mandy
12. Roma
13. Hereditary
14. Isle of Dogs
15. Annihilation
16. Cold War
17. Coco
18. Leave No Trace
19. You Were Never Really Here
20. I, Tonya

«Bel Canto» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

O estilo operático que dá nome a este título do sempre difícil de categorizar Paul Weitz (American Pie, About a Boy) faz logo esperar um drama apaixonante, e também ele operático, mas Bel Canto acaba por se revelar um mero filme político de mensagem explícita, mensagem esta capaz de figurar num pacote de açúcar. A saber: a música, neste caso o canto lírico, é a grande linguagem universal capaz de unir povos de várias origens e ultimamente salvar o mundo do caos que nos encontramos. O caos aqui presente é um conflito político, que obriga forças rebeldes a fazer reféns de um evento, entre os quais a cantora de ópera mundialmente reconhecida Roxanne Coss e seus fãs de diversas nacionalidades. Ouvimos espanhol, japonês, francês, alemão... como se a maldição de Babel estivesse toda aqui focada numa sala.

Assim, entre a tentativa de alheamento da realidade através do visionamento da novela Maria la del Barrio (a ação decorre no final da década de 90), a violência sempre latente e uma vontade de aprender outras línguas, começa a nascer o amor. Não só entre um, mas dois casais. Nada como uma situação de reféns para disparar o romance entre estes, afinal.  

Sendo a música o verdadeiro motor desta narrativa, existe logo uma questão problemática à cabeça: nada contra o playback, quando bem executado. No caso de Julianne Moore, geralmente uma atriz capaz de elevar sempre o material que lhe é proposto, foi-lhe dado um presente envenenado aqui. Não se esperava que fosse cantar como uma cantora de ópera, não senhor, mas o seu jogo de lábios com a voz da Renée Fleming denuncia o truque, removendo-nos assim do filme em alturas tão cruciais (talvez problema da realização e montagem também aqui). 

Bel Canto consegue ser a pior das obras do seu género dito "humanista"- nem subtil nas suas intenções, nem substantivo ou minimamente memorável na sua pseudo-essência cinematográfica (não falta sequer o slow motion entre música de violino a "embelezar" o final), no que usa para chegar ao seu objetivo. Uma espécie de resposta nas mesmas notas de Weitz ao cinema liberal de pacotilha de Sean Penn. 

André Gonçalves

«King of Thieves» (O Rei dos Ladrões) por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

A premissa aparenta ser refrescante, vista a uma certa distância: resgatar uma geração de atores britânicos de uma certa idade, colocando-os de novo a encabeçar uma golpada à antiga. Desta feita, trata-se do roubo "real" de diamantes de um cofre de uma das zonas mais ricas de Londres: Hatton Garden.  

O rei dos ladrões do título é Brian Reader (Michael Caine) que convoca então a sua equipa de veteranos, onde salvo uma excepção, é toda ela composta por homens, ou preocupados em levar injecções para a diabetes tipo 2, ou que "passam das brasas" muito facilmente. Assim, uma ideia de sketch pincelada com a idiossincracia que o humor britânico oferece prolonga-se até ser impossível disfarçar o aborrecimento. As piadas, ora geriátricas, ora simplesmente datadas, acumulam-se. 

Se é certo que noutros tempos, o charme destes senhores atores (para além de Caine, temos: Jim Broadbent, Tom Courteney, Ray Winstone, Michael Gambon e Paul Whitehouse) por si só desse carta branca a um veículo despudorado, não é preciso ter essa referência esfregada na cara do espectador - sim, temos literalmente as versões cinematográficas mais jovens destes atores inseridas na sala de montagem a corte e colagem. Facilitista, para dizer o mínimo. Aliás, não seria preciso tamanho truque para nos darmos conta que os atores encontram-se presos às expectativas mais básicas que possamos ter deles, de há meio século para cá: encontram-se todos dispostos a cumprir os seus maneirismos tradicionais, em segurança. As personagens deixam de ser reais para serem adaptadas às suas personas, portanto. O argumento não pede mais, afinal: veja-se, a título de exemplo básico, como o uso da perda da mulher do protagonista logo nos minutos iniciais é apenas mencionada no futuro desta narrativa um par de vezes como punchline - algo como  "Se a minha mulher nos ouve dá voltas na campa..." (parafraseado do que é efetivamente dito, mas é esta a intenção).   

Em suma: perante tamanho roubo, o maior roubo permanece ainda assim o do tempo precioso do espectador. 

André Gonçalves 

«Disobedience» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Segundo o Tora, Deus criou três tipos de entidades: Anjos, Bestas, e ao último dia, o Homem, nem Besta nem Anjo, dotado de liberdade para desobedecer. 

Sebastián Lelio, responsável por alguns dos estudos de personagens femininas mais marcantes dos últimos anos (Gloria, Uma Mulher Fantastica) decidiu também ele desobedecer um pouco a esse padrão, pelo menos temporariamente, e decidiu participar numa história a três, onde cada vértice do triângulo acaba também por si por representar um ponto do espectro na devoção à comunidade judaica onde cresceram. 

Acabando de saber que o seu pai, o rabi da comunidade, morreu (após proferir o discurso presente no primeiro parágrafo), Ronit (Rachel Weisz), a renegada desobediente, regressa a casa. Aí depara-se logo com o discípulo preferido do seu pai, Dovid (Alessandro Nivola), e posteriormente com Esti (Rachel McAdams). Ronit eventualmente percebeu que, de modo para ter liberdade para pensar por si, tinha que sair do espaço que a viu crescer. Esti acaba por ser no fundo a versão dela que não conseguiu sair de casa, e acabou por assentar com Dovid, como única escapatória/cura para os seus desejos de besta que acabaram por ser notados... um compromisso que a chegada de Ronit vem abalar. 

Perante este enredo inescapavelmente novelesco, Lelio convoca até um registo clássico, Sirkiano, de "filme de mulheres", de melodrama puro. Este sempre foi um género bem discriminado, mesmo com o revisionismo por outros autores contemporâneos (Pedro Almodóvar, Todd Haynes, etc. ), porque a telenovela - i.e. o melodrama mais comercial - sempre soube também simplificá-lo. Aqui, não haja dúvidas: há cinema para dar e distribuir. 

Ora usando tracking shots para acompanhar estas personagens (ironicamente sem um rumo bem decidido), pondo-nos como testemunhas deste affair, ora aproximando então a câmara para nos revelar nuances, ou aquilo que é efetivamente importante para as personagens, Lelio vai formando uma tapeçaria complexa de emoções nas quais o trio Weisz, McAdams e Nivola são co-artesãos.  Sem os três atores, os múltiplos desenlaces e os falsos finais poderiam ser mais desorientantes do que já são. É graças à sua entrega que aceitamos esta oferta genuinamente humana de Lelio como uma obra de amor, que talvez não saiba bem como sair de cena, sim, mas até aí se mantém fiel às suas personagens. 

Que um filme tão cativante como este não consiga estreia comercial em sala é sem dúvida mais alarmante que qualquer imperfeição que possa possuir. 

 

André Gonçalves

 

«Sauvage» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Tendo sido apelidado como um dos filmes-choque de uma mesma edição Cannes que recebeu também Lars von Trier no seu modo mais psicótico, Sauvage surge precisamente no tempo certo. 

Numa época onde tanto se fala em legalizar/regulamentar o trabalho sexual, ou até questionar essa atividade enquanto trabalho, argumentando que o corpo é mais mercadoria que força, esta estreia de Camille Vidal-Naquet tem tudo para incendiar ainda mais debates, e reforçar tanto noções abolicionistas (aquelas que defendem que devemos a todo o custo repudiar a prostituição como trabalho digno) como noções libertárias do corpo como instrumento deste "trabalho" em concreto. 

Leo tem 22 anos e já não sabe há quanto tempo vende o corpo em troca de dinheiro para ir sobrevivendo. Ou não quer dizer, dado que esta informação surge via uma consulta médica. Afirma-se como gay, ao contrário do seu protegé de rua pelo qual nutre um amor inconfessável, daqueles amores de adolescência que teimam em ser não correspondidos, se não contarmos a violência como correspondência...

Por um lado, não há ilusões aqui para esta Cabiria dos tempos modernos - o realismo não é o de Fellini, mas sim o de outros franceses pós-nouvelle vague. Vem até estranhamente à memória (talvez por uma revisão recente) Sans Toi Ni Loi (Sem Eira Nem Beira) de Agnés Varda (1985), no qual uma outra figura "renegada" da sociedade deambula pelas ruas, por lares diferentes, procurando o seu lugar numa sociedade que não a compreende - nesse, o olhar sempre enigmático das pretensões da protagonista e das origens para este estatuto "sem abrigo" eram discutidos pelos "olhos" de quem se cruzava em narrações episódicas; aqui, o olhar está todo concentrado no corpo desnudado entregue pelo cada vez mais impressionante Félix Maritaud (120 Batimentos Por Minuto, Un Couteau Dans Le Coeur).

E não se trata apenas de mostrar nudez (e sexo) entre homens para chocar o homem heterossexual branco, o que mais facilmente terá um instinto (social?) em querer salvar estes rebeldes, colocando-os em posições sociais mais confortáveis - mesmo que não estivesse dinheiro envolvido na transação. Trata-se, lá está, de abrir as nossas lentes limitadas constantemente por uma discussão que teima também ele em não expandir, e não aceitar que a vida de um prostituto de rua não é glamorosa, sim, mas que há um espectro nestes encontros e vão surgir outras atividades em complemento ou alternativa à penetração peniana, da manifestação de empatia e carinho terapêuticos (mesmo que a troco de dinheiro) às violências/violações de dignidade mais revoltantes, a roçar a certo ponto o masoquismo, traço não tão incomum da nossa natureza enquanto espécie como se possa pensar.  

O protagonista acaba por aturar todas estas violências - físicas, psicológicas, sentimentais - para no final querer apenas poder respirar, literalmente e metaforicamente. E se respirar implicar querer usar o corpo como um uniforme, uma máquina verhoeviana (referência assumida a Kyle Buchanon em entrevista) que se retoca, costura, e se vira do avesso, eis talvez a maior provocação. Vidal-Naquet acaba por sugerir assim, pelo menos para este espectador, que a "salvação branca" pode ser em si um final bem mais deprimente do que poderíamos esperar, também aí deitando uma acha à fogueira ao debate público... 

 

André Gonçalves

«Kin» (Arma Letal) por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

 

Geralmente, a principal queixa da expansão de uma curta-metragem para o formato longa-metragem é sentir que não havia assim tanto mais para contar. 

No caso dos irmãos gémeos australianos Jonathan e Josh Baker, adaptar a sua curta Bag Man revelou-se a oportunidade de deitarem tudo o que tinham cá para fora, como se esta fosse a sua última oportunidade. Como se tivessem adivinhado que, entre a possibilidade de ficarem enterrados num catálogo cada vez mais vasto de uma certa plataforma de streaming, ou serem despejados no pior fim de semana para se lançar filmes, só iam ter uma tentativa de contar o que poderia facilmente ser desenvolvido numa nova saga. Sendo assim, saímos de Kin incertos de todas as peças funcionem, mas também fascinados por elas todas estarem aqui à disposição.

Estamos, em primeiro lugar, e para maior das surpresas, perante um filme "classicista", no sentido em que nutre claro carinho pela ficção de perseguição de outrora, incapaz até de ceder ao confronto fácil, e até render-se aos set pieces de um Terminator. Aqui a perseguição a estes dois irmãos de origens diferentes (Myles Truitt e Jack Reynor) parte de duas frentes: uma equipa procura uma arma que o irmão mais novo roubou de um edifício abandonado, enquanto caçava sucataria; outra, liderada pelo mafioso Taylor Balik (James Franco, inicialmente parecendo ter saído do cenário de Spring Breakers, para imediatamente impôr respeito com uma máscara psicótica tanto à sua medida) procura vingança por um "trabalho incompleto", por assim dizer.

Ora, esta duplicação, à qual se junta um confronto adicional ali pelo meio, faz desde logo prometer uma ação que o filme não busca oferecer, adia propositadamente. Prefere focar-se em "pontos mortos", uma tentativa bastante nobre de elevar a interação entre estas personagens que antes desta história começar, eram também perfeitos desconhecidos. E pese a diversidade na escolha do elenco, o filme não se inibe em ir a lugares politicamente incorretos por assim dizer, como espelhar no grande ecrã a fantasia de qualquer miúdo heterossexual de 14 anos: ser levado pelo seu irmão mais velho a um bar de strip, e disparar uma arma - à qual só ele está misteriosamente qualificado para disparar.    

E não é só no conteúdo que o filme demonstra não querer ser o novo Transformers (ou mesmo o claramente mais idolatrado Terminator 2- referenciado aqui diretamente num jogo de arcada). Os irmãos vão ali revelando traços estéticos nos planos a chamar atenção para si, ao ponto de aqui e ali poderem até distrair o espectador. Perante mostra tão diversificada de portfolio, e dado o passado publicitário da dupla, há que perdoar um ou outro plano mais sonhador em câmara lenta.  

Kin, tal como a arma que "cai do céu" ao seu protagonista, é um objeto difícil de descodificar à partida. O seu potencial e funcionalidades vão sendo reveladas aos poucos, mas a sensação final é um pouco contraditória: o de por um lado ter sido feito muito com tão pouco, e ainda assim não ter concretizado o suficiente para ficar para a memória coletiva futura. Ainda assim, merece respeito acima de tudo pela maneira como os seus eventos díspares, mesmo culminando num clímax obrigatório, não aparecem programados por uma equipa de argumentistas robô, conferindo a esta ficção mais ou menos científica um toque realista tão em falta pelos lados de Hollywood. 

André Gonçalves  

«Unsane» (Distúrbio) por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Após ter anunciado a retirada do cinema e de quatro anos sem grandes sinais de vida, Steven Soderbergh voltou ao seu ativo tipicamente prolífico e multifacetado, na qualidade de cineasta "decatlonista", i.e. um homem que acaba por saber um pouco dos vários ofícios e artifícios desta arte, da montagem e fotografia à escrita de argumentos. 

Para provar que não tem medo de novos desafios, o realizador de Sexo, Mentiras e Vídeo regressa à câmara mas desta feita escolhe um objeto que qualquer um consegue arranjar numa loja de eletrónica: um iPhone. A ideia não é nova, e o realizador não aterrou de repente nesta nova moda: estamos afinal a falar de um dos grandes responsáveis para que a transição para o digital se tenha dado de forma tão fluída. Há um par de anos, um filme conquistava Sundance: Tangerine - um acontecimento tão palpável que a Academia já o imortalizou, colocando um dos iPhones que Sean Baker utilizou no Museu da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Há 30 anos atrás, era Sexo, Mentiras e Video a revolucionar cineastas contemporâneos e futuros. 

Soderbergh usa o iPhone não como nova brincadeira de um miúdo de 7 anos, mas para enaltecer a claustrofobia da protagonista. Essa é a primeira vitória de Unsane, um thriller que joga inclusivé com o seu aspecto, colando-se estilisticamente a títulos cheesy/série B da década de 70 ou 80 (o plano final sendo a piscadela mais óbvia).

Não é o que aparenta ser que incomoda ultimamente aqui, mas sim o que se decide e quando se decide de um ponto de vista de storytelling, sobretudo face ao trailer entretanto divulgado. A certo ponto, a veia paranóica muito evidenciada na promoção esbate-se rapidamente; sabemos com o que contar. Se por um lado, este abrir do jogo não deixa de esconder uma atitude punk e antisistema, que, observando a carreira do cineasta, temos provas mais que suficientes da sua existência, por outro, acaba por retirar grande parte do suspense que a obra aparentava possuir, sobretudo quando esta envereda por um terceiro ato a ir mais de encontro à tal imagem de thriller básico de outros tempos... 

Sendo Soderbergh, ainda assim, um autor mais consistente do que se lhe é dado crédito, mantém-se aqui uma mensagem política forte quando se discute porque é que  Sawyer (Claire Foy, a mostrar que o seu talento é também visível em qualquer ecrã) se mantém assim retida - o dinheiro sempre a ser um motif, mais ou menos silencioso, na sua obra. E claro, é impossível não mencionar o facto deste ser o primeiro filme a ser rodado com a consciência do movimento #MeToo, sobretudo quando o assédio é a temática central aqui. 

Perante o que vai conseguindo fazer e o que tem para dizer, sobretudo ao longo da primeira metade, e pela entrega total da sua atriz principal, Unsane merece uma espreitadela nos videoclubes caseiros. E perante tanto lixo em material mais caro, custa a crer que não se tenha dado uma oportunidade a este filme que é no mínimo prova que podemos sim começar a pensar nos smartphones como meios completamente válidos para contar histórias.  

 

André Gonçalves

«Lean on Pete» (O Meu Amigo Pete) por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Quantos cineastas se podem gabar de ter dois primeiros filmes como Weekend e 45 Anos? Não muitos, certamente. Daí que a expetativa para um novo filme de Andrew Haigh estivesse inevitavelmente alta.

Tendo já rompido com a bolha queer (não sem antes ter dado a já icónica série de televisão Looking) e demonstrado uma vontade de expandir horizontes com o anterior filme onde Charlotte Rampling questionava se os seus últimos 45 anos em conjunto não foram uma mentira aprendida, Haigh volta a mudar de contexto, indo agora para um adolescente de uma cidade rural que acaba por fazer amizade com um cavalo, como compensação para a disfuncionalidade da sua família.

Em Lean on Pete, o autor britânico oferece-nos duas narrativas bem clássicas do cinema norte-americano: o coming of age e o road movie, filtradas por uma cinematografia inescapavelmente bela e uma aura confiante de realismo social legitimada (Bresson em primeiro plano, irmãos Dardenne mais recentemente). Mas este enamoramento bem evidenciado pelo passado ameaça também seguir os piores vícios de quem está decidido a deixar a “lamechice” de parte – nomeadamente confundir subtileza (e pensar que se é mais subtil do que realmente é, é também considerado pecado capital para este escritor) com distanciamento emocional. Isto torna-se mais gritante quando os elementos não tão subtis estão claramente aqui a separar literalmente atos.

Por outro lado, o cinema já demonstrou que filmar relações entre cavalos e humanos não é tão fácil como filmar pessoas - nomeadamente no que toca a criar laços emocionais com o espectador, sem cair ou na lamechice ou num estado de anestesia. Assim de repente, no cinema recente, diria que só Robert Redford o soube fazer bem (O Encantador de Cavalos). Quanto menos falarmos do Cavalo de Guerra de Spielberg, melhor. Não deixa de ser irónico, que, perante uma personagem órfã da vida como esta – um festim típico para Spielberg, Haigh ofereça-nos algo nos antípodas, mas igualmente em falta para com o espectador que se esteja a marimbar para a técnica e queira emoção pura. Lean on Pete revela-se assim um filme anestesiado, tão enamorado pelas suas referências que se esquece que a rédea curta que mantém ao longo de duas horas não é suficiente para o payoff emocional que tenta possuir. E para complicar, com a jovem revelação Charlie Plummer (excluindo Travis Fimmel, em quinto plano) a revelar-se o único elemento do corpo de atores de classe A capaz de atribuir verosimilhança à história - felizmente este está em praticamente todos os planos do filme. Assim fica difícil nutrir mais que uma mera nota de respeito.

André Gonçalves

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