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«I, Tonya» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Se rir é o melhor remédio, é também a melhor defesa.

Caso entre mãos: I, Tonya, película de Craig Gillespie. Durante a primeira hora e meia, este filme "reconta" a história da patinadora artística norte-americana Tonya Harding num tom satírico, começando desde logo por satirizar, de uma forma refrescante, o "baseado em factos verídicos" que tanto popula, sobretudo nesta altura do ano, as salas de cinema.

Há aqui um claro eco num marco dos anos 90, que até contava com uma patinadora como figura secundária, mas extremamente relevante para a narrativa de crime e castigo entre mãos: To Die For (Disposta a Tudo). Gillespie, que já tinha dado um sinal suficiente que poderia até chegar a esse pico de equilíbrio perfeito entre sátira e empatia traçado por Gus Van Sant com o anterior Lars and the Real Girl (no qual conseguiu o feito de transformar uma boneca sexual numa figura viva aos olhos do espectador), estatela-se ao comprido quando se trata de desenhar figuras humanas de uma história com traços carregados de realidade, o que é de si tão ou mais impressionante como o seu feito anterior. 

Sim, esta sátira, sobre violência humana cometida desde logo entre uma mãe e filha (impressionantes  Alisson Janney e Margot Robbie, no que têm a fazer com os seus "embustes" de personagens - embora tenhamos também que felicitar o trabalho de caracterização, outro potencial nomeável aos prémios da Academia), é rica em "partir pratos", e fraca em ambiguidade. Primeiro rimo-nos, depois começamos a ficar ligeiramente desinteressados. Trata-se aqui de um clássico caso de jogar à defesa 3/4 do tempo para não lidar de perto com a tragédia, e depois de repente, começar a querer colher os frutos de algo que nunca realmente atacou. A saber: a construção de personagens que não sejam elas próprias meros punchlines andantes.

Melhor (pior), é o filme não ter consciência das suas falhas. "Pensei que ser famosa ia ser divertido. (...) Depois fui odiada, e depois fui apenas uma punchline. Foi como ser abusada outra vez. Só que desta vez foi por vocês. Todos vocês. São todos os meus atacantes também." diz-nos a Tonya ficcionada no início do último ato, olhando diretamente para a câmara/espectador. Ou será para o realizador?

Com a introdução de uma narrativa mais séria estilo Scorsese (o FBI a chegar, enfim, toda a lista de procedimentos por esta altura imagináveis, vistos vezes sem conta...), o filme perde o fôlego inevitavelmente porque pede uma seriedade (e até um choradinho) de algo que não chegou a merecer, pois, de facto, passou ao lado dela a maior parte do tempo. A reter para a posterioridade o que fica? Uma seleção musical, essa sim, a merecer figurar no balanço de melhores do ano, e a maneira frenética e urgente como filma as sequências do ringue, se, ainda assim, seguras e centradas em close ups.

Com isto tudo, torna-se difícil recomendar I, Tonya, mesmo que, ultimamente, a sua bagunça seja também a bagunça de toda uma América, ontem e hoje.   

 

André Gonçalves

Conheça os 10 pré-nomeados ao Oscar de Melhores Efeitos Visuais

Como vem sendo habitual, a Academia de Hollywood, antes de anunciar os nomeados efetivos para categorias mais "secundárias", revela uma lista de pré-candidatos. Aconteceu assim há dias atrás com os 9 pré-candidatos ao Oscar de Melhor Filme em Língua não Inglesa, os 15 pré-selecionados na categoria de documentário, e acontece agora com os Efeitos Visuais. 

Ainda na corrida estão, sem qualquer choque, Blade Runner 2049, Dunkirk, War for the Planet of the Apes (imagem acima), Star Wars: The Last Jedi e The Shape of Water. Estes serão aliás os nomes mais consensuais nas bolsas de apostas. 

Mais chocante será desde já a omissão de Wonder Woman do lote de "nomeáveis". Segue-se então "o top 10" ainda na corrida:  

Alien: Covenant
Blade Runner 2049
Dunkirk
Guardians of the Galaxy Vol. 2
Kong: Skull Island
Okja
The Shape of Water
Star Wars: The Last Jedi
Valerian and the City of a Thousand Planet
War for the Planet of the Apes

«O Fim da Inocência» por André Gonçalves

  • Publicado em Critica

Uma das peças mais irritantes que testemunhei no daytime TV foi precisamente, quando num canal privado, um dito psicólogo da praça se propôs a ir ver o que os adolescentes andavam a fazer "na noite". 

O Fim da Inocência não será exatamente tão gratuito e simplista quanto esse pedaço de antena, mas esperava-se melhor de um realizador que, em tempos, se tornou umas das vozes mais curiosas do panorama pós-moderno do cinema português - precisamente por ter feito uma ponte rara entre o sucesso do público sem desprezar uma vertente de crítica social a essa mesma audiência. 

Em boa verdade, desde que parou de assinar os seus próprios argumentos, e começou a aceitar encomendas (i.e. adaptações de bestsellers nacionais), que houve um desaparecimento da personalidade mais crítica que poderíamos atribuir a Leitão. Se em Sei Lá, adaptação do romance de Margarida Rebelo Pinto, poderíamos atribuir a culpa, ou desculparmos a produção por querer aparecer num tempo que já não existe, aqui já não há esse tipo de subterfúgios - temporais, pelo menos. O Fim da Inocência é um filme cobarde, sim - ao usar um moralismo puritano mais escandaloso que qualquer cena "polémica" ou "escaldante" que possa dizer ter para chamar espectadores, instruindo constantemente o seu público com um mapa em como reagir, não confiando nele, e perdendo consequentemente toda a sua confiança. 

E é, mais que um mero mau filme, uma oportunidade perdida. Numa típica capa aos pais que poderia ter a gorda: "vejam o que os vossos filhos andam a fazer quando não estão a ver", o que temos é um desfile de personagens bidimensionais, não tão distantes ironicamente, como as caras que as poderão interpretar, desfilando para as revistas da moda. Mas é um desfile que, pese uma péssima narração (rivalizando aqui com o já mencionado Sei Lá) e restrições de copyright risíveis (Cinder, disseram?), revela por sua vez uma empacotagem minimamente sólida e bem apertada para estes tempos pós-morangados - aqui méritos restantes ao realizador "anónimo", que ainda assim sabe como reter a nossa atenção até final, no meio de tanta superficialidade. 

Para ter um pequeno vislumbre do que poderia ter sido esta história que trata O Fim da Inocência (filme, se não o livro que o deu origem com o subtítulo "Diário Secreto de uma Adolescente Portuguesa" - não o li, não o pretendo julgar por isso), o espectador tem na mesma semana Verão Danado de Pedro Cabeleira, feito para todos, sem restrições explícitas de epilepsia, e os tiques/truques de história verídica aqui também presentes. 

 

André Gonçalves

 

«Call Me By Your Name» lidera nomeações a Independent Spirit Awards

 Foram hoje revelados os nomeados aos Independent Spirit Awards, organização que premeia o que melhor se fez no último ano no cinema indie norte-americano.

Call Me By Your Name de Luca Guadagnino parte na frente com seis nomeações (incluindo filme e realizador), seguido de perto de Get Out de Jordan Peele e Good Time dos  com 5 nomeações cada. O filme dos irmãos Safdie falhou no entanto nomeação ao "prémio principal" tendo sido substituído pela longa-metragem muito menos conhecida The Rider, de Chloé Zhao. A lista de nomeados para Melhor Filme é completada com os êxitos sensação da A24 Lady Bird e The Florida Project. O prémio Robert Altman, atribuído ao realizador(a), diretor(a) de casting e respetivo elenco, foi este ano para o elenco de Mudbound, distribuído pela Netflix. Já Three Billboards outside Ebbing, Missouri e I, Tonya, outros dois filmes bem cotados para Oscars, falharam também nomeações para filme e realizador, tendo pontuado ainda assim nas categorias de interpretação, argumento e/ou montagem. The Shape of Water de Guillermo Del Toro, outro dos favoritos e aparentemente elegível, foi estranhamente silenciado aqui. 

Segue-se então, como habitualmente, a lista completa de nomeados: 

 

MELHOR FILME (LONGA-METRAGEM)

Call Me by Your Name 

The Florida Project

Get Out

Lady Bird

The Rider

 

MELHOR PRIMEIRO FILME (LONGA-METRAGEM)

Columbus

Ingrid Goes West

Menashe

Oh Lucy!

Patti Cake$

 

JOHN CASSAVETES AWARD - dado ao melhor filme abaixo dos 500 mil doláres (atribuído ao argumentista, realizador e produtor)

Dayveon

A Ghost Story

Life and nothing more

Most Beautiful Island

The Transfiguration

 

MELHOR REALIZADOR

Sean Baker, The Florida Project

Jonas Carpignano, A Ciambra

Luca Guadagnino, Call Me by Your Name

Jordan Peele, Get Out

Benny Safdie, Josh Safdie, Good Time

Chloé Zhao, The Rider

 

MELHOR ARGUMENTO

Greta Gerwig, Lady Bird

Azazel Jacobs, The Lovers

Martin McDonagh, Three Billboards outside Ebbing, Missouri

Jordan Peele, Get Out

Mike White, Beatriz at Dinner

 

MELHOR PRIMEIRO ARGUMENTO

Kris Avedisian, Kyle Espeleta, Jesse Wakeman, Donald Cried

Emily V. Gordon, Kumail Nanjiani, The Big Sick

Ingrid Jungermann, Women Who Kill

Kogonada, Columbus

David Branson Smith, Matt Spicer, Ingrid Goes West

 

MELHOR FOTOGRAFIA

Thimios Bakatakis, The Killing of a Sacred Deer

Elisha Christian, Columbus

Hélène Louvart, Beach Rats

Sayombhu Mukdeeprom, Call Me by Your Name

Joshua James Richards, The Rider

 

MELHOR MONTAGEM

Ronald Bronstein, Benny Safdie, Good Time

Walter Fasano, Call Me by Your Name

Alex O'Flinn, The Rider

Gregory Plotkin, Get Out

Tatiana S. Riegel, I, Tonya

 

MELHOR ATRIZ PRINCIPAL

Salma Hayek, Beatriz at Dinner

Frances McDormand, Three Billboards outside Ebbing, Missouri

Margot Robbie, I, Tonya

Saoirse Ronan, Lady Bird

Shinobu Terajima, Oh Lucy!

Regina Williams, Life and nothing more

 

MELHOR ATOR PRINCIPAL

Timothée Chalamet, Call Me by Your Name

Harris Dickinson, Beach Rats

James Franco, The Disaster Artist

Daniel Kaluuya, Get Out

Robert Pattinson, Good Time

 

MELHOR ATRIZ SECUNDÁRIA

Holly Hunter, The Big Sick

Allison Janney, I, Tonya

Laurie Metcalf, Lady Bird

Lois Smith, Marjorie Prime

Taliah Lennice Webster, Good Time

 

MELHOR ATOR SECUNDÁRIO

Nnamdi Asomugha, Crown Heights

Armie Hammer, Call Me by Your Name

Barry Keoghan, The Killing of a Sacred Deer

Sam Rockwell, Three Billboards outside Ebbing, Missouri

Benny Safdie, Good Time

 

ROBERT ALTMAN AWARD - dado ao realizador(a), diretor(a) de casting e respetivo elenco

Mudbound

Realizadora: Dee Rees

Diretores de casting: Billy Hopkins, Ashley Ingram

Elenco: Jonathan Banks, Mary J. Blige, Jason Clarke, Garrett Hedlund, Jason Mitchell, Rob Morgan, Carey Mulligan

 

MELHOR DOCUMENTÁRIO

The Departure

Faces Places

Last Men in Aleppo

Motherland

Quest

 

MELHOR FILME INTERNACIONAL

BPM (Beats Per Minute)

A Fantastic Woman

I Am Not a Witch

Lady Macbeth

Loveless

 

BONNIE AWARD

So Yong Kim

Lynn Shelton

Chloé Zhao

 

JEEP TRUER THAN FICTION AWARD

Shevaun Mizrahi, realizador de Distant Constellation

Jonathan Olshefski, realizador de Quest

Jeff Unay, realizador de The Cage Fighter

 

KIEHL'S SOMEONE TO WATCH AWARD

Amman Abbasi, realizador de Dayveon

Justin Chon, realizador de Gook

Kevin Phillips, realizador de Super Dark Times

 

PIAGET PRODUCERS AWARD

Giulia Caruso & Ki Jin Kim

Ben LeClair

Summer Shelton

 

André Gonçalves

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