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Edgar Pêra "arrasa" salas de cinema de Lisboa

O realizador Edgar Pêra, cujo O Espectador Espantado chegou esta semana às salas, divulgou através das redes sociais a sua indignação em relação às exibições nas salas de cinema, frisando, sobretudo, as de Lisboa, aquando de um episódio ocorrido na sessão de estreia.

Fala-se muito na morte do Cinema mas na realidade são as salas de cinema que definham. O Espectador Espantado não foi exibido no seu dia de estreia no Alvaláxia devido a problemas técnicos com a projeção 3D. Imaginem se o mesmo se passasse com os Vingadores ou com os Incríveis II (ambos filmes 3D), o escândalo que seria... Mas não só os cinemas privados que desinvestem na qualidade das suas projeções.”

“Muito recentemente mostrei na Culturgest O Homem Pykante e o som era totalmente deficiente: ao que parece uma coluna tinha morrido e não lhe tinham feito o funeral. Mas o cúmulo foi quando um técnico sugeriu ao misturador do filme que fizesse novas misturas para as especificidades daquela sala.... Também a última vez que projetei um filme no São Jorge, o som era uma miséria, e consta que apenas usam as melhores lâmpadas do projetor em sessões oficiais."

"Não sei se a situação se mantém nestas salas, mas ainda há pouco vi no Corte Inglês um filme numa versão escura e sem contraste. A decadência do cinema enquanto fenómeno coletivo será inevitável? (não costumo postar este tipo de comentários, mas já é confrangedor estrear um filme numa só sala em Lisboa, quanto mais ver sabotada a sua estreia).”

O Espectador Espantado é visto como um filme-ensaio que questiona a existência e longevidade do Cinema e a sua relação com os espectadores e vice-versa. A obra conta ainda com entrevistas a personalidades como o filosofo Eduardo Lourenço, o crítico Augusto M. Seabra e os realizadores Guy Maddin e F.J. Ossang.

«Girl» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Como um recente programa de culinária, o termo “receita com twist” pode muito bem ser aplicado nesta estreia no universo das longas por parte do jovem Lukas Dhont, que cita a sua anterior curta Corps Perdu (2012) como um corrimão de apoio para um inesperado bailado. Esse, não literal à temática secundária do filme, que funciona ao jeito de uma prolongação “distópica” a Billy Elliot (a diluição de géneros para rompimento das leis embaladas da nossa sociedade, que assumem, acima de tudo, patriarcais), mas na consistência da sua narrativa diurnal, periódica nas fases de um jovem transgénero que se desfila perante o baile da sua autodeterminação.

Assim, sem mais demoras e na viabilidade de chocar o espectador com a “estranheza” do (não)reconhecimento, somos apresentados a Lara (Victor Polster), jovem ansioso pela sua mudança radical (impacientemente ansioso acrescente-se) e com isso seguir o sonho de se tornar bailarina. O que impede é claramente uma certa dissertação inerente, um isolamento emocional por parte da sua inadequação que o afasta dos demais, principalmente da família que abraça a sua causa como derradeira missão ou das paixonetas, tão particulares em verdes anos que surgem como turbilhões identitários.

Tendo em conta a generalidade dos contos transgéneros, o bullying físico-psicológico é algo abandonado por Lukas Dhont. O seu reconto nesses aspetos cada vez mais debatidos e urgentes parte vão em investida direta com as questões sentimentais do protagonista ao invés de focar numa sociedade em repudia perfeita. O que vemos, nessa questão social, é um comunidade aberta e recetiva a essas mudanças fisiológicas e de status, e é através disso que deparamos com outro tormento a transientes, a sua auto-inserção /aprovação.

Lukas Dhont estabelece um quadro-cotidiano desta Lara, embarcando num realismo formal, mas completamente orgânico para com a câmara, ponto que viabiliza as sequências de dança no atelier com uma vibrante sincronia. Obviamente que esta carnalidade da câmara com a ação é fortalecida em efeito à dedicação e exposição do ator e dançarino Victor Polster. É inegável o seu estado de graça, contagiante … aliás, diria antes, transparente e traspassável (a transição funciona como um elo mais abrangente que a temática sexual, a ligação crucial entre espectador e filme / nossa realidade com a realidade filmada). A sua sensibilidade, a sua melancolia desgastante e por fim a sua dor, simples processos de fenomenologia, pontuam como triunfos nesta relação de confidências entre realizador e ator.

Cumplicidades que nos guiarão cegamente para o mais cruel dos desfechos. Lembram-se das “receitas com twist” ... pois bem ... o que aparentemente era mais um exercício de quotidiano encenado, revela-se numa provocação. Em seu jeito, uma prank, sob o gesto de abanar consciências, mais que simples éticas sociais, a da natureza inconformista e inquieta do ser humano, o impulsor desta jornada de sentidos e sentimentos. Uma das grandes estreias no “cinema para grandes”, Lukas Dhont é [indiscutivelmente] um nome a seguir.

Hugo Gomes

Marco Martins, realizador de «São Jorge», anuncia nova longa-metragem

Marco Martins com o ator Nuno Lopes e a atriz Mariana Nunes durante a apresentação de São Jorge no Festival de Veneza

Em promoção à série de televisão Sara, que desenvolveu em conjunto com o ator e comediante Bruno Nogueira, Marco Martins, também conhecido como realizador de Alice e São Jorge, revelou ao C7nema pormenores sobre a sua próxima longa-metragem.

Este seu novo filme será rodado em Inglaterra tendo como protagonistas Beatriz Batarda e Nuno Lopes, dois atores que integram o elenco da série: “Esta longa-metragem é a consequência de um projeto de dois que tive a desenvolver com essa grande comunidade portuguesa localizada numa zona de Inglaterra.


Beatriz Batarda em Sara

Beatriz Batarda também falou com o C7nema sobre a sua personagem neste novo projeto de Martins, que segundo ela  “faz a ponte entre uma entidade empregadora de uma zona industrial e os imigrantes portugueses em situação limite em busca de uma saída económica.” Ainda sobre o cenário, a atriz referiu que “não é à toa que ele [Marco Martins] escolhe Inglaterra”, dando indicação que o Brexit será tema recorrente nesta longa-metragem: “Com isso ele pretende levantar todas essas questões, se há ou não livre circulação dentro dos mercados e se em concreto [ela] é equilibrada ou não

De momento ainda não foi divulgada qualquer data de estreia nem o inicio de rodagem desta nova produção.

Recordamos que Sara, a série televisiva com direção de Marco Martins -apresentada no último Indielisboa - estreia no dia 7 de outubro na RTP2. Nela acompanhamos uma consagrada atriz dramática que perde a sua capacidade de chorar, iniciando com isto um percurso algo existencialista.

«Mariphasa» por Hugo Gomes

  • Publicado em Critica

Em entrevista ao C7nema, o argumentista Tiago Santos (colaborador habitual dos filmes de António-Pedro Vasconcelos), especificou o medo de um certo cinema português no simples ato de contar uma história (com isto dificultando o trabalho de argumentista no mercado cinematográfico nacional), obviamente alicerçado com outros problemas fundamentais.

Em Mariphasa, a segunda longa-metragem de Sandro Aguilar, o enredo é algo coexistente com a ambiência de um filme que envia o espectador, literalmente, a um mundo às escuras, ao invés de se assumir na imperatividade do guião. Fragmentado e envolvido num eterno jogo de mistério, Aguilar, exercitado após 14 curtas, uma longa e claro, um trabalho excecional na produção nacional, envolve-se numa obra em que os cenários se alargam infestando todo uma suposta clareza narrativa.

Contudo, e talvez repescado a sua primeira longa de estreia, A Zona, onde um simples lugar passa automaticamente a um não-lugar e sucessivamente a um estado de alma, em Mariphasa esse ciclo de passagens é desfasado por uma tendência de codificação. O espectador não possui nenhum alicerce, é somente atentado em seguir o percurso até ao fim, abraçando essas trevas, essa experiência, ou renegando todo este efeito, da mesma forma que o desconhecido se converte num medo mortalizado.

Confessamos que neste trabalho de Sandro Aguilar há todo um esforço conjunto por todas as partes, desde a fotografia [admirável] de Rui Xavier, até à sonoplastia aliada desta atmosfera tenebrosa (Miguel Cabral e Tiago Matos) e obviamente um elenco empenhado em atribuir vida a estas personagens em cacos, do ponto vista argumentativo. É cinema sensorial, isso sim, damos a mão à palmatória ao realizador (também autor do argumento), mas dentro desta panóplia de sensações, um território povoado por monstros em busca das suas respetivas redenções (o próprio título é a palavra-chave de toda esta conversa, mais precisamente por invocar a planta-antidoto à maldição do Homem-Lobo na versão de 1935), existe uma venda que o impede de se tornar mais do que o mero exercício técnico.

Em Mariphasa nada é gratuito, aliás, nada é dado como adquirido, há que merecer o filme, mesmo que o resultado seja mais próprio que universal.

Hugo Gomes

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