Menu
RSS

«The Assignment» (A Missão) por Duarte Mata

  • Publicado em Critica

Numa época em que as questões de género e identidade assumem (felizmente) uma maior primazia em colóquios e debates, recordamos o significado do prefixo “trans-”, isto é, um “elemento que significa além de, para além de, em troca de…” *. Ou seja, algo que pretende reafirmar-se enquanto entidade própria e complexa, ao invés da redução à condição inerente com que se vê concebida. Um filme como o mais recente de Walter Hill, A Missão, pretende abordar o tópico da transgeneridade duma perspetiva liberal, enquanto joga com o questionamento sobre a possibilidade duma mudança completa e radical do sexo intrínseco, tentando demolir os critérios pré-determinísticos das escolhas e trajetos que este reserva ao ser humano. Filme de género? Filme transgénero.

Não se tem encontrado muito esta referência, mas a intriga em torno de um cirurgião plástico (neste caso, uma cirurgiã interpretada por Sigourney Weaver) que captura um homem e lhe provoca uma mudança de sexo com meros propósitos revanchistas já foi abordada no passado por Almodóvar em A Pele Que Habito. Mas a obra do cineasta espanhol era demasiado “certinha” e necessariamente portadora de um discurso panfletário ao politicamente correto neste campo, o que chegava a pôr em causa a construção fílmica narrativa que precedia a derradeira cena. Não pretendia questionar nem incomodar o espetador com a sua alegoria, apenas avisá-lo de que estava ali como portador da própria. Para nossa sorte, Hill ganha pelo seu mal comportamento, não querendo que o seu filme opte pela vitimização ou empatia por nenhuma das suas personagens, o que talvez explique as subsequentes reações controversas que despoletou no interior das comunidades LGBT.

A controvérsia é logo suscitada pela escolha deliberada de pôr Michelle Rodriguez a interpretar o papel masculino do começo, onde a barba postiça e a reposição digital do seu corpo por outro másculo provam-se opções, no mínimo, perturbadoras para levar à suspensão da descrença. Mas é também aí que o realizador toma consciência da reputação que antecede a atriz que tem à disposição. Rodriguez é célebre pelos seus papéis de mulher durona (Avatar e a série Perdidos, por exemplo), de alguma forma respostas ao “universo masculino” do cinema de ação dos anos 80 que Hill ajudou a consolidar. Aqui, pelo contrário, ao fazer de Rodriguez parte desse universo masculino afetado pela inversão forçada do género, obriga-a a encontrar e a construir a sua feminidade na personagem, que, inconscientemente, já está presente ainda antes da dita “transformação”. Daí se justificam aquelas longas cenas de contemplação ao seu corpo feminino diante de espelhos, como se procurasse averiguar o que este representa enquanto símbolo psicológico, emocional e, finalmente, social. E é quase em tom cínico que se conforma em aceitá-lo como instrumento sensual na 3ª parte (ao invés de encará-lo como uma limitação), só assim conseguindo alcançar a plena realização da sua retaliação.

Mas não é só a nível de personagens que Hill leva esta sua (trans)figuração do tema. Apesar de parte da sua competência técnica parecer vir inspirada de um livro de banda-desenhada (as transições na montagem ou os breves frames de cenas desenhados a tinta da china), o argumento remete para citações de Shakespeare (nomeadamente Hamlet, outro protagonista que fez da vingança o seu propósito fulcral de vida) e Poe (na reiteração insistente do termo nevermore, isto é, a irreversibilidade, neste caso, sexual, e que era feito leitmotiv no seu poema The Raven). Com isto, Hill funde a literatura estigmatizada como “inferior” (há por aqui muito, muito pulp) com a clássica, isto é, comumente aceite como “superior”. Ou ainda, os planos com a personagem da cirurgiã (quase sempre em cenários azulados, de dia) a contrastarem com os de Rodriguez (vermelho-alaranjados e noctívagos) que reforçam também a tese de que os opostos tentam coexistir na mesma entidade fílmica, revelando a argúcia da sua mise-en-scène. Repetimos a questão: Filme de género? Filme transgénero. E se, como é dito a certa altura, “Uma pessoa é o género que acredita ser.”, vamos mais longe e afirmamos que o mesmo se passa na relação do espetador com o filme que assiste.


Duarte Mata

*Definição obtida a partir de Priberam.pt

"O politicamente correto está a matar-nos" diz Clint Eastwood

No Festival de Cannes, o cineasta americano Clint Eastwood (Million Dollar Baby) discutiu o seu regresso como ator numa master class a propósito dos 25 anos de Imperdoável (1992), o filme que lhe valeu o primeiro Óscar de realizador.

O último desempenho de Eastwood foi em As Voltas da Vida (2012). Sobre a representação, disse “Sinto falta de estar à frente da câmara de vez em quando, mas não com frequência”, acrescentado ainda que tenciona voltar a fazê-lo brevemente.

O realizador manifestou ainda sua opinião relativamente aos tempos que correm na indústria cinematográfica e como se tem refletido na audiência. Começando por referir que aquando a estreia do primeiro filme da saga Dirty Harry (1971), este foi considerado politicamente incorreto e que tal deu começo a uma era de “politicamente correto”: “Estamos a matar-nos com isso, perdemos o nosso sentido de humor. Quando o fiz, achei-o interessante e ousado”.

Em resposta ainda a uma afirmação de um crítico dos Los Angeles Times “Os seus instintos são às vezes melhores que o seu intelecto.", o cineasta respondeu “Intelectualizar ou pseudo-intelectualizar pode ser uma armadilha. O cinema é uma forma de arte emocional, não uma intelectual”

«Ad Astra», o novo filme de James Gray com Brad Pitt

Quase a estrear em Portugal o seu último filme, A Cidade Perdida de Z, James Gray revelou numa entrevista um novo projeto, que irá começar as filmagens este Verão, o filme de ficção científica Ad Astra.

Em entrevista ao site Collider, Gray afirma que co-escreveu o argumento com Ethan Ross e a intriga gira em torno de um engenheiro autista, cujo pai abandonou-o há 20 anos atrás para ir numa missão a Neptuno, de forma a encontrar sinais de inteligência extra-terrestre. Chegado a adulto, ele parte em busca do seu pai numa viagem pelo sistema solar.

Quando perguntado se o projeto contará com a presença de Brad Pitt, o cineasta replicou "Sim, sim e sim. Estou empolgado. O género de ficção científica é tão matreiro porque envolve elementos de fantasia, bem como elementos fantásticos. O que estou a tentar fazer é a abordagem mais realista da viagem espacial que já foi posta em filme e dizer, basicamente, 'O espaço é terrivelmente hostil para nós'. É a história do Coração das Trevas numa viagem para fora do sistema solar. Eu tenho imensas esperanças, mas é certamente ambicioso... começo as rodagens em 17 de Julho. Estou assustado, mas isso é bom."

Atenção! Este website usa Cookies.

Ao navegar no website estará a consentir a sua utilização. Saber mais

Entendi

Os Cookies

Utilizamos cookies para armazenar informação, tais como as suas preferências pessoais quando visitam o nosso website. Os cookies são pequenos ficheiros de texto que um site, quando visitado, coloca no computador do utilizador ou no seu dispositivo móvel, através do navegador de internet (browser). 

Você tem o poder de desligar os seus cookies, nas configurações do seu browser, ou efetuando alterações nas ferramentas de programas AntiVirus. No entanto, isso poderá alterar a forma como interage com o nosso website, ou outros websites.

 Tipo de cookies que poderás encontrar no c7nema?

Cookies estritamente necessários : Permitem que navegue no website e utilize as suas aplicações, bem como aceder a eventuais áreas seguras do website. Sem estes cookies, alguns serviços que pretende podem não ser prestados.

Cookies analíticos (exemplo: contagem de visitantes e que páginas preferem): São utilizados anonimamente para efeitos de criação e análise de estatísticas, no sentido de melhorar o funcionamento do website.

Cookies funcionais

Guardam as preferências do utilizador relativamente à utilização do site, de forma que não seja necessário voltar a configurar o website cada vez que o visita.

Cookies de terceiros

Medem o sucesso de aplicações e a eficácia da publicidade de terceiros. Podem também ser utilizados no sentido de personalizar widgets com dados do utilizador.

Cookies de publicidade

Direcionam a publicidade em função dos interesses de cada utilizador. Limitam a quantidade de vezes que vê o anúncio, ajudando a medir a eficácia da publicidade e o sucesso da organização do website.

Para mais detalhes visite http://www.allaboutcookies.org/

Secções

Quem Somos

Segue-nos

Contactos