Longe da exuberância de um Tudo Bom Rapazes ou de um Casino, e com uma frieza, pragmatismo e melancolia que impele uma reflexão complexa sobre o mundo do crime, as suas ligações à política e o sentido das amizades pessoais, O Irlandês é provavelmente um dos menos espetaculares e mais contidos filmes de Martin Scorsese, mas definitivamente um dos mais maduros e meditativos.

Pegando no livro não ficcional I Heard You Paint Houses, da autoria de Charles Brandt, Scorsese embarca numa história épica sobre o crime organizado nos Estados Unidos do pós-guerra, tendo como peça central num tabuleiro de  poder, códigos de conduta, honra e lealdade, a figura de Frank Sheeran, veterano da Segunda Guerra Mundial que se converte num assassino a soldo da Máfia, cuja vida se cruza com o sindicalista Jimmy Hoffa.

De Niro é pura maestria nas mãos do cineasta, com quem já colaborou nove vezes – uma relação que começou quando foi o rufia trapaceiro Johnny Boy (Cavaleiros do Asfalto) e continuou com Jake LaMotta (Touro Enraivecido), Travis Bickle (Taxi Driver), Max Cody (Cabo do Medo) e Sam ‘Ace’ Rothstein (Casino), entre tantas outras personagens memoráveis. Em todos eles, o ator reiventou-se e o cineasta também, algo que sucede novamente neste O Irlandês, onde De Niro tem a sua melhor prestação desde a década de 1990, muito por culpa do misto de coração e falta dele que o guião de Steven Zaillian lhe atribui.

E todo o filme é uma caixa de surpresas de contenção sombria, com De Niro a ser acompanhado pelo absolutamente extraordinário Joe Pesci, distante da explosividade e instintividade que as suas personagens normalmente detinham nos filmes de Scorsese. Aqui, ele não precisa matar ninguém a sangue frio com uma caneta, ou sequer questionar “se acham que ele é engraçado” para colocar todos em sentido. Através de uma calma e expressividade comedida, Pesci [e também Harvey Keitel, em menor escala] marca a figura do homem poderoso que trabalha nas sombras sem necessitar realmente sujar as mãos. Scorsese foca muito bem isso quando coloca Pesci em cena com a filha de De Niro no filme (Anna Paquin, na versão adulta), alguém colocado em cena de forma distanciada [num misto de repulsa e medo] que eleva ainda mais as figuras tenebrosas que a rodeiam no seu crescimento.

Resta ainda falar de Al Pacino, outro grande nome (em estreia com Scorsese), e talvez um dos mais marcantes mafiosos no cinema (Michael Corleone de O Padrinho). Assumindo o papel de Jimmy Hoffa, uma das figuras mais enigmáticas da história do século XX nos EUA, alguém que já anteriormente tinha sido apropriado no cinema por Jack Nicholson no filme homónimo de 1992, Pacino entrega os maiores rasgos de teatralidade retórica deste O Irlandês, sobressaindo a complexidade e ambiguidade de um homem em luta contra o sistema, bem longe do heroísmo proletário que o sistema capitalista selvagem despertou noutras paragens. A sua travessia entre mundos (laboral, político, criminal) tornou-o uma figura tão temida como perseguida, amada como odiada, elementos que derradeiramente o fizeram cair na húbris do “larger than life” que se revelaria letal.

E Scorsese trabalha tudo isto entre a história pessoal, do crime organizado e meio século de construção política e judicial dos EUA pós-guerra, balanceando os elementos harmoniosamente sem nunca cair na glamourização (como o fez em Lobo de Wall Street, por exemplo), nem tão pouco procurar uma redenção forçosamente plastificada e sentimental.

Mais que isso, Scorsese equaciona se a redenção é possível e prova no seu final que entre as ambições juvenis e os remorsos do final da vida, tudo o que sobrou foi uma solidão devastadora e uma distância daqueles que mais se amou.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
Hugo Gomes
Rodrigo Fonseca
André Gonçalves
Fernando Vasquez
the-irishman-o-irlandes-por-jorge-pereiraO Irlandês prova que Martin Scorsese tinha ainda uma última palavra a acrescentar ao género de filmes de gangsters que tanto marcaram a sua carreira.