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«Stan & Ollie» (Bucha & Estica) por Guilherme F. Alcobia

O novo filme de Jon S. Baird não podia ser mais diferente da sua anterior produção, Filth (2013), que, como o próprio título indicia, é um filme cínico sobre a vida depravada de um polícia escocês vil. Stan & Ollie, por sua vez, retrata a famosa dupla de comediantes Bucha e Estica que, desde os anos 1920 até meados da década de 1950, animou cinemas por todo o mundo. Se o último filme do realizador era desagradável e excessivo, este é, para o bem e para o mal, uma carta de amor a outros tempos.

Esses tempos são, bem o sabemos, a era do slapstick, do humor tongue-in-cheek, de Chaplin, Keaton e Harold Lloyd. Foi desta tradição que saíram Laurel e Hardy, e se estavam bem acompanhados, neste filme estão bem representados. Steve Coogan é o sensato Stan Laurel, elemento do duo que, além de escrever a maior parte do material, mais parece ser o manager do seu parceiro. Coogan faz um exercício admirável entre o lado alegre e inocente que fazia do Estica uma personagem tão simpática, e o lado comedido e apreensivo que as circunstâncias profissionais da sua carreira impunham. Como Oliver Hardy, John C. Reilly trabalha sobretudo a faceta terna mas desgastada do Bucha, cujos percalços de saúde ameaçam desconvocar a digressão que os dois faziam pelas ilhas britânicas em 1953.

Como a História já ficou encarregue de nos contar, essa tornou-se efetivamente a “canção de cisne” dos comediantes. É então com doses generosas de nostalgia e sentimentalismo que seguimos estes tempos de despedida de dois homens que dependiam um do outro a vários níveis e se amavam quer dentro, quer fora do ecrã.

Embora a dinâmica entre os dois atores seja contagiante, honrando a química que realmente fez destes humoristas um sucesso internacional, quem rouba muita atenção são as suas mulheres. «Duas duplas pelo preço de uma», como a certo ponto afirma uma personagem. Este segundo duo, interpretado por Shirley Henderson e Nina Arianda, injeta um humor mais moderno e retórico no ambiente de palhaçada caricata, muito mais física, dos seus maridos. Essa contraposição dá um novo alento ao filme na segunda metade, que não deixa de ser bastante melosa. Pois esse é, de facto, o grande pecado do argumento de Jeff Pope, guionista reconhecido por Philomena (2013): cada cena parece amontoar-se às anteriores para criar uma escalada de condolência que culmina no último número musical, em que os parceiros dizem adeus ao palco definitivamente.

Nesses momentos, a câmara de Baird extenua a emoção com detalhes expressivos e artificialismos de slow-motion, que tornam certas cenas quase enjoativas. Noutras ocasiões, é o virtuosismo da fotografia que impressiona – as primeiras cenas particularmente exprimem uma vivacidade nas composições, um dinamismo nos movimentos, que entretanto se vai atenuando. A bem dizer, as maiores qualidades e os maiores defeitos de Stan & Ollie derivam sempre deste mesmo fator, a admiração pela dupla protagonista, que constantemente balanceia o filme entre a homenagem encantadora e a bajulação lamechas.

Guilherme F. Alcobia



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