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«Glass» por Rodrigo Fonseca

Autocrítico, debochado com as convenções do universo nerd e preocupado com a carpintaria da ilusão, Glass (literalmente "Vidro", em Português) estreia no dia 17 com a promessa de se tornar um dos maiores sucessos de 2019, mas com a hipótese de trombar com o fracasso dada a divergência de pontos de vista que M. Night Shyamalan gera, sobretudo num projeto que se (e o) aproxima de Brian De Palma. Da mesma forma como o pai de Carlito Brigante e Carrie, o indiano fissurado pela Filadélfia assume a mentira como tema, a simulação, a aparência. Na verdade, existe a transgressão. Estamos diante de uma continuação tardia de O Protegido ("Unbreakable", 2000), formando um díptico com "Fragmentado", fenómeno popular de 2016. E, nele, o diretor se recicla e oxigena um sistema cinematográfico sofisticadíssimo de reflexão sobre a fábula.

Reinvenção é uma arte na qual Shyamalan é um mestre. Depois de ter caído em desgraça com o injustiçado A Senhora da Água (2006), ele amargou uma década de rejeições até se recriar a partir da televisão, com uma série com aura de culto, Wayward Pines, redescobrindo o prazer de filmar com baixíssimo orçamento e total liberdade, o que foi sua realidade em "A Visita" (2015), um exercício autoralíssimo da carpintaria do assombro, com o qual ele redescobriu as manhas do terror a partir das quais havia despontado para o estrelato, em 1999, com O Sexto Sentido. De volta às veredas do medo na plenitude de sua potência estética, ele se reencontrou e recuperou a tarimba de abocanhar gordas bilheteiras, como comprova o sucesso popular de seu novo e soberbo trabalho: um thriller de suspense à moda dos anos 1970 (à la "Sisters", de De Palma) que tem em Sarah Paulson (magnífica em sua atuação atónita e sussurrada) o seu trunfo. Shyamalan volta uma vez mais a uma práxis cinemática no padrão Hitchcock, no que envolve a opção por sugerir em vez de escancarar, de criar clima ao invés de apelar para um grafismo pornográfico da violência. Reviravoltas no argumento – o trunfo de seus primeiros filmes – voltam aqui, possantes, famintas por queixos caídos. Mas é na imagem que ele encontra o diferencial de narrativa e de sedução, ao fazer um filme sobre (e não de) super-heróis todo calcado em closes, inclusive nas sequências de luta, filmadas em primeira pessoa, com um enquadramento apolíneo.

O desempenho esmagador de James McAvoy, o jovem Professor Xavier de X-Men, é um ás e um chamariz. Mas a estrela do filme é a direção, em sua ouriversaria no emprego dos códigos do suspense, demarcando uma espécie de terceiro hemisfério na trajetória do cineasta, dando prosseguimento à saga da Filadélfia, o seu microcosmos. Nada é mais quotidiano do que a circunstância na qual um grupo de jovens é capturado pelo personagem de McAvoy, após este se safar da Lei em Fragmentado. Só que, aqui, David Dunn (Bruce Willis, grisalho e taciturno) vai no seu encalço, esbarrando com a figura de Mr. Glass, ou Elijah, papel padrão Lex Luthor que dá a Samuel L. Jackson a chance de brilhar em vários momentos, menos quando engolido por Sarah.

Ela é a psiquiatra especializada numa síndrome de "super-heroísmo" que junta os três num sanatório, espaço onde a longa metragem ganha contornos de filme de prisão. Parece "THX 1138" (1971), mas almeja um outro caminho, menos metafísico, mais voltado a um debate moral. Desde A Vila (2004), a sua obra-prima, Shyamalan passou a se interessar sobre a génese da vilania e o seu posicionamento estratégico no planisfério das narrativas. Mas, aqui, ele entra no campo das fake news, discutindo a arte do engano como prática do Poder. A loucura, em Shyamalan, não é a negação da verdade, mas a subversão da mentira.


Rodrigo Fonseca 



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