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«Green Book» por Jorge Pereira

Doce e simplificado para as massas, Green Book poderia se chamar Amigos Improváveis, versão 1960

Poderíamos - como Viggo Mortensen o fez em entrevistas - evocar o trabalho de Frank Capra e Preston Sturges neste Green Book, ou então algum do cinema "feel good" dos anos 80 e 90 como Zeba Blay e Matthew Jacobs o disseram no Huffington Post, mas na verdade se há memória recente que nos imediatamente vem à cabeça na construção desta comédia dramática, para além de ser uma variação de Driving Miss Daisy, é que estamos perante uma espécie de Amigos Improváveis (que teve já um remake americano) na década de 1960.

Pegando o nome do guia usado pelos viajantes negros entre 1930 e 1960 para evitarem lugares que poderiam originar problemas e recomendar alojamento seguro, o filme segue em particular a história de um pianista clássico negro (Mahershala Ali) que em 1962 embarca numa tournée pelo sul profundo e racista da América, acompanhado por mais dois músicos e um segurança/chofer de origem italiana. Essa viagem foca a discriminação sistemática a que ele está sujeito, isto pese embora seja de classe alta e tenha como audiência nos seus espectáculos as esferas mais ricas e poderosas da sociedade local. 

O filme toca em todos os pontos de uma construção embelezada para agradar ao público, mesmo que para isso sacrifique a verdade por trás da sua história real. Sim, a família do músico que inspirou esta história queixou-se de diversas inverdades e o adocicar de situações, tendo Mahershala Ali vindo a público lamentar o que foi descrito pelos familiares do Dr Don Shirley como "uma sinfonia de mentiras". 

Adulterada ou não, Green Book tenta sublinhar o trajetos de dois homens de origens, classes e raças diferentes, mas o que essencialmente consegue é simplificar uma amizade que supera a raça, ser uma viagem aos clichés de uma América repleta de tensões e discriminações; e perseguir o objetivo de ser um conto familiar de crescimento pessoal (e até cultural) de um  "italiano" de classe baixa, e de um negro que sai dos padrões da época e vive uma vida desafogada (capaz de definir o seu destino sem interferência superior), mas solitária e infeliz. 

No essencial, este é um filme doce, até necessário em tempos em que o mundo parece se dirigir para uma nova vaga do sentimento imbecil da "supremacia branca", mas acima de tudo, Green Book é um produto cinematográfico industrial, um "crowd pleaser" previsível e hiper romantizado, aligeirado e com muito pouco para acrescentar, sendo as fortes e empáticas performances de Viggo Mortensen e Mahershala Ali o que merece ser destacado, pese embora também elas sejam derivativas.


Jorge Pereira



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