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«Brillantissime» (Pronta Para a Luta) por Jorge Pereira

Nesta estreia de Michèle Laroque na realização, através da adaptação de uma peça teatral de Geraldine Aron que a própria adaptou e interpretou no teatro do Palais-Royal em Paris, acompanhamos Angela, uma mulher cinquentona que é abandonada por praticamente todos na véspera de Natal, como o marido, a filha e a sua mãe. Fustigada e isolada e nessa data "forçosamente" festiva, Angele decide recomeçar a vida e mudar completamente a sua perspectiva existencial.

É uma pena que todos os caminhos deste filme estejam já tão vistos e revistos no Cinema, resultando tudo numa experiência tremendamente oca, superficial e derradeiramente fútil, mais como um objeto de auto-ajuda com ambições poéticas que um trabalho artístico devidamente compensado. Caindo nos lugares comuns da maioria das comédias românticas, na associação do estado de solteira aos 40, 50 ou 60 anos como uma espécie de condenação perpétua ou doença incurável que lhes oferece um sentido de vida incompleto, Brillantissime é totalmente centrado numa personagem que não consegue evidenciar grande força, originalidade ou empatia.

A opção de Laroque por aqui é consciente e quando opta por transpor o trabalho teatral ao cinema, teria forçosamente de apresentar um visual rico, distinto, ou cinematograficamente relevante para justificar este "remake". Na verdade, sente-se que a agora cineasta tenta fazer com que tudo se enquadre através do olhar de Angela, com muitas vezes a cinematografia a ser invadida/esmagada pela luz, resultando numa superexposição que nunca lhe retira uma assinatura quase televisiva (por vezes parece uma sitcom) com objetivos profundamente comerciais no campo do crowd pleaser familiar pastiche com uma forçosa "cura da doença de estar sozinha."

E se na técnica artística e na narrativa as coisas não correm bem, neste caso nem os atores e as suas personagens conseguem trazer chama ao filme. Veja-se um colega frequente de Laroque no cinema, o ator Kad Merad no papel de pseudo psicólogo em modo repetitivo nas gags e com uma entrega emocional sem fulgor. Todas as outras estão também aqui entregues a papéis repletos de lugares comuns, sendo particularmente pobres os momentos mãe-filha representados. Salvam-se alguns momentos de Rossy de Palma e Gérard Darmon. E não é preciso ir muito longe para ver resultados mais conseguidos na dinâmica familiar e nas resoluções num filme estreado há pouco tempo em Portugal; Jalouse, com Karin Viard - uma divorciada - a ter ciúmes da juventude da filha.

Por tudo isto, Brillantissime é uma bola na trave no cinema francês que já encontrou maneiras bem melhores de mostrar a solidão depois dos 50 e nem precisou de Viard ou Alexandra Lamy para o fazer...Basta pensar em L'Avenir de Mia-Hansen Love.


Jorge Pereira



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