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«A Ciambra» por Hugo Gomes

Abram alas!! Temos um novo universo partilhado cinematográfico, conceito nada de novo, digamos, nem sequer devedor do mercado glutão dos super-heróis e monstros ambulante. A utopia aqui descrita em A Ciambra, que interliga com Mediterranea, é uma réplica social e étnica de uma Itália sob as crises existenciais e identitárias.

Porém, avança-se que Jonas Carpignano não se interessa em criar panfletos de reinserção social, ao invés disso preenche a tela com outra tela, um reflexo da nossa realidade, sem filtros nem moralidades enxertadas. A Ciambra, que segue um jovem de etnia cigana perante uma reafirmação de status, o da sua comunidade, assumindo como um elemento patriarcal e da sociedade que o rodeia e o rejeita, é a atualização de uma homónima curta da autoria do próprio Carpignano, um revisitar aos elos e às hospitalidades por vezes hostis.

Assim como o coming to age vivido pelo protagonista, de criança a adulto forçado, esta curta a longa desvia a atenção de qualquer compaixão ou solidariedade por parte do espectador. Filma-se a seco, invocando as raízes do neorrealismo italiano, deixa previsível por aqueles ares de contexto social, mas é nas infâncias renegadas de um Zero em Comportamento de Jean Vigo ou das delinquências escapistas de Antoine em 400 Golpes do nosso amigo Truffaut, que A Ciambra bebe diretamente da fonte. Fora as particularidades étnicas e sim, também eles, éticas, Jonas Carpignano retrata a adolescência tortuosa de qualquer um, sem cor, sem divergência cultural e sobretudo sem os maniqueísmos pedagógicos que atormentam o cinema (para) jovens.

Portanto esse formalismo do real, o culminar de 100 anos de aproximação da Sétima Arte com a nossa visão estandardizado do mundo envolvo, A Ciambra funciona como um dos rebentos dessa inteiração, se alguns apelidam na ressurreição do novo realismo conterrâneo, outros falaram na maturidade da câmara em lidar com o verité (verdade) das suas ações. Assim como um rapaz que conheceu uma rapariga é imbativelmente na maior das odisseias cinematográficas, a criança em linha direta ao mundo adulto não fica atrás.

Hugo Gomes



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