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«I Kill Giants» (Eu Mato Gigantes) por Raquel Soares

Os monstros são reais e os fantasmas também, eles vivem dentro de nós e às vezes eles ganham”.

- Stephen King


A verdade é que a utilização de monstros para codificar dor não é de toda uma ideia nova. Desde o seu início que as criaturas que habitam os contos de terror e folclore servem como materializações das ansiedades do Homem, muitas vezes representando a ameaça do outro e do desconhecido. No entanto, em anos recentes os diretores de fotografia e criadores de cinema tem aplicado esta ideia e expondo-a diretamente em frente dos nossos olhos. Filmes como
Bridge to Terabithia e mais recentemente A Monster Calls assumem a metáfora e usam-na para contar histórias profundas de perda e de renovação. I Kill Giants relembra realmente estes dois filmes acima mencionados, mantendo sempre um olhar surrealista brincando sempre com a fronteira do fantástico e da realidade, nunca chegando totalmente definir um nem outro.

O filme destaca-se no entanto pelo seu carácter, próprio e cheio de força como de charme. Todo o ambiente é construído de modo a magia estar sempre omnipresente, e pequenos pormenores como orelhas de coelho, aos livros de retalhos, às armadilhas construídas nas árvores, toques tão reconhecíveis de Peter Pan e os meninos perdidos. Os gigantes também são construídos de maneira bastante competente apesar da carência de originalidade no seu design. A falta de artificialidade em todo o filme, mesmo quando os gigantes estão à vista (especialmente nas cenas ambientadas na floresta), contribui para uma narrativa que nos faz constantemente ponderar de que lado da linha estamos (no caso do lado fantástico, se do realismo fantástico ou se do simbolismo).

A maior parte do encanto do filme concentra-se na personagem principal. Bárbara é igualmente forasteira como familiar, representando tanto a vulnerabilidade que nos pertence e a força que como crianças pensávamos possuir. Madison Wolfe faz um trabalho excecional em fundir-se com a personagem, agarrando a nossa atenção desde o primeiro momento, num jogo de opacidade e transparências que intriga até ao último momento. Ela é a personagem que as meninas pequenas deviam querer seguir, uma criança que mesmo que mate gigantes assemelhe às crianças à nossa volta.

Este é realmente um filme de mulheres (grandes e pequenas), representadas de forma variada e sempre com sólidas atuações por trás, desde Zoe Saldana (com uma sensibilidade fora do comum) até Sydney Wade (que contrasta com Madison apelando quase a um luz/escuridão com um pequeno apoio de Imogen Poots, representado as irmãs que ascendem a mães na adversidade). No entanto, algo podia ter sido afinado neste filme. Apesar da narrativa cativante, não consegue fugir de alguns lugares-comuns, especialmente quando os “bullies” tomam espaço de antena, retirando um pouco de magia à história. A cinematografia apesar de competente, poderia ter adquirido contornos mais artísticos, até porque havia muitos elementos com o qual seria apto para “brincar” ou simbolismos que valiam a pena ter sido aprofundados pela direção. Estas coisas, apesar de pequenas, elevariam I Kill Giants um pouco mais.

Assim, eis um filme cheio de distinção, uma aventura infantojuvenil que conta com externalização de demónios e emoções complexas, constituindo um dos destaques deste verão.

Raquel Soares



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