«Adrift» (À Deriva) por Hugo Gomes - C7nema
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«Adrift» (À Deriva) por Hugo Gomes

Baltasar Kormákur parece ter adquirido o gosto pela sobrevivência sob o carimbo de factos verídicos. Provavelmente envolvido em formulas de sucesso, o islandês que tem partido para terras de Hollywood em busca de um lugar seu, optou pela porta grande do facilitismo como mão-de-obra barata.

Perante os buddy cop movies e thrillers de ação, Everest foi das suas grandes conquistas de bilheteiras, sendo que tal modelo parece replicado neste Adrift, a viagem de sonho que se revela num autentico episódio de superação humana. Contudo, há que salientar que neste seu novo filme, em comparação com a expedição ao ponto mais alto do globo (em contraste com a travessia do maior oceano, prova que Kormákur é atraído pela dimensão do obstáculo), o resultado é mais afável e em certa maneira modesto.

Trazendo à tona a dupla Shailene Woodley e Sam Claflin, o par romântico experimental cuja a química é inexistente, Adrift deriva entre o romance sparkeano e o thriller de cerco cujos lugares-comuns estão em voga, isto se não fosse o memorando “inspirado na história de uma sobrevivente real”. Contudo, o filme joga em compensação dos seus próprios fracassos, ou seja, temos a nosso dispor um romance sem fogo de vista que mendiga pela atenção do espectador assumindo como encadeado flashback em jeito de ferramenta de compreensão (de forma a atribuir coerência a um eventual plot twist), e como brinde uma Shailene Woodley que tenta impedir o esperado naufrágio.

Sim, a tragédia parece evitada, a atriz que brilha alto na minissérie Big Little Lies (para desamarrar das incursões juvenis) esforça-se fisicamente em atribuir veracidade a uma personagem condenada ao artificialismo. Por sua vez, Clafin, sempre carismático em projetos anteriores, diríamos, é um corpo morto em todo este trajeto ao sabor das ondas. Assim, são as filmagens em alto-mar, os jogos do costume que engrossam o nosso manual de sobrevivências e o fachada antes-créditos que nos relembra o quão “verdadeiro” foi todo esta (des)ventura.

Adrift é meramente um produto passageiro, seguindo rota por correntes navegadas, deslumbrando o horizonte longinquamente escasso da criatividade dramática. Romances destes e sobrevivência destas existem ao pontapé.

Hugo Gomes



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