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«Tully» por André Gonçalves

Se um navio mudar as suas tábuas ano a ano até um dia todas estas tiverem substituído as antigas, poderá este ser considerado o mesmo navio ou um novo navio? Se as nossas células estão constantemente a regenerar, seremos nós a mesma pessoa de há 10 anos atrás? Este é o dilema que é posto pela dupla Jason Reitman e Diablo Cody na sua terceira colaboração. Este dilema de regeneração, de luta por saber o que somos face ao nosso passado, se devemos abandonar esse passado para enfrentarmos uma nova estabilidade, é base daquele que acaba por ser um estudo de personagem - o terceiro também, incidindo sobre uma figura feminina.

Olhando para a barriga de Charlize Theron nos minutos iniciais, pode vir logo a ideia que estamos perante uma continuação lógica de Juno, o filme que colocou os dois criadores no mapa. Mas o espírito de Tully é mais conturbado - mais quirky, sim - que esse tão bem intencionado filme de 2007. Espiritualmente, estamos onde Young Adult nos deixou (ou não fosse Theron ser aqui o terceiro elemento repetente nesta colaboração), um território onde não se pode ignorar os efeitos nefastos que uma crise dos 30s (ou 40s) possa ter na saúde mental de um indivíduo. Sobretudo quando a maternidade entra em cena. 

Marlo é assim uma Mavis Gary no seu sonho por realizar, de ter uma vida conjunta, de não ter sofrido o aborto que lhe causou separar-se do seu namorado de liceu (não deixa de ser também curioso que Juno, Young Adult e Tully se toquem pela maternidade, concretizada ou falhada, cor-de-rosa ou de várias cores). Marlo revê obviamente a sua juventude entretanto perdida na ama noturna que veio para tratar dela assim como para tratar do seu bebé recém-nascido. E Theron está de corpo (sim, engordou aquele peso todo) e alma aqui, não menosprezando Mackenzie Davis (Black Mirror: San Junipero). A interação entre Theron e Davis, a sua química predestinada, o diálogo entre o que foi e o que deve ser feito torna-se fundamental a levar as intenções de realismo mágico de Cody a lugares realmente tocantes. É o ferro intocável do navio, que permite a que  (*ALERTA POTENCIAL SPOILER*) a sua mutação em territórios raramente vistos neste contexto no cinema-cobertor de Hollywood ao fundir doença mental com maternidade, acabe por também funcionar tão bem como funciona, numa reviravolta que acaba por não ser nada chocante se formos à espera de uma - daí o alerta - e que funciona ainda melhor aqui do que em muitos filmes de género onde já fez parte, pois dá precisamente a volta ao tema central do filme, enquanto é um dispositivo inteligente para nos mostrar pedaços do passado que foram largados. 

Haverá quem argumente que Reitman, sendo de uma escola "classicista", escolha ainda assim um final apropriadamente aconchegante para esta história, onde tudo passa a estar rapidamente bem, mesmo quando não devesse estar - em defesa dos criadores, não nos é especificado o tempo que decorre desde o acidente da protagonista e os últimos minutos. Mas olhe-se mais de perto, ou de outro ângulo, e poderemos também testemunhar o final mais deprimente em muito tempo: deveremos nós sacrificar a juventude para nos mantermos sãos? 

Tully merece muito ser experienciado e estimado - pelo que conta, pelo que tão bem consegue sintetizar (em hora e meia) e metaforizar (ao dar uma reviravolta à reviravolta, usando-a para expandir o seu canvas dramático, e para abrir o debate sobre uma temática ainda hoje tabu na nossa sociedade).

 

 

André Gonçalves



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