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«Le Redoutable» (Godard, O Temível) por Hugo Gomes

Há que admitir a coragem de Michel Hazanavicius em “biografar” aquele que para muitos é um Deus vivo da 7ª Arte. A repudia é iminente, visto que este estudo de um homem que decide reinventar-se, mais do que ele próprio, o seu cinema, soa como uma heresia de tal tamanho, e maior, tendo em conta o tratamento acordado nesta demanda antipessoal.

Encarnado por Louis Garrel, filho de um dos realizadores que mais estima tem por Godard, Phillipe Garrel, o cineasta-representação é uma espécie de clown, um herdeiro indigno do slapstick do Buster Keaton ou das vontades de ridicularização de um Monty Python. Ele é uma “pinatta”, pronta a ser vardascada por Hazanavicius e pelo público. Cuspido como uma caricatura, uma imagem generalizada do gigantesco ego, porém, é aqui que reside o maior trunfo deste Le Redoutable, a ousadia de transfigurar algo divino, algo intocável, não ceder ao “crowd pleaser” de veneração ao ídolo.

Em entrevista, Hazanavicius falou que por vezes grandes artistas são péssimas pessoas. Não cabe a nós julgar Godard à distancia, mas a História é a favor do criador de Le Redoutable. A sua instabilidade, o seu narcisismo, a sua obsessão pela afirmação no circuito artístico e politico, elementos que contribuíram para a criação de novas linguagens cinematográficas, novas visões para além da narrativa, e ao mesmo tempo o levaram gradualmente ao registo eremita que os seus últimos filmes tem indiciado (convém salientar que não o perdoamos pela crueldade causada a Agnés Varda, captado em Visages, Villages).

Mas a crítica ácida e de coñojes termina aqui. O filme entra num registo de autodefesa, uma auto-humilhação para ser mais claro. Enquanto tenta estabelecer uma espécie de meta-cinema para esse propósito, assim como a personificação de Louis Garrel aclama tratar-se de um “ator” e não o “verdadeiro Godard” (reforçando com “ainda por cima um mau ator”), Le Redoutable adquire uma insegurança em seguir avante a sua ideia, em recear o culto godardiano munido de tochas e forquilhas pronto para o tumulto.

Depois há ainda a tendência de mimetizar os maneirismos dos filmes do “homenageado”, remetendo a um La la Land referencial, a um doce tranquilizador das fúrias estabelecidas. O resultado dessa brincadeira de parecenças é insuficiente, “espertalhona” e ao mesmo tempo míope, reduzindo toda uma cinematografia (anos 60) para adereços bibelôs. Porém, acima dessa leveza, existe Stacy Martin que se afigura como a atriz Anne Wiazemsky, a relação perturbada de Godard, e cujo esforço trespassa a previsível caricatura.

Hugo Gomes



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