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«Chuva e Cantoria na Aldeia dos Mortos» por Hugo Gomes

 

O chamado realismo encenado, a reconstrução do “olhar de ninguém”, não nasceu em Portugal exclusivamente pela mão de João Salaviza, mas foi graças ao seu empenho que por fim reinventou-se na nossa cinematografia. A verdade é que com a Montanha, a sua primeira longa, o jovem realizador culminou todo o seu universo até então fragmentado ao seu trabalho de curtas, citando as lengalengas da infância rebelde, dos filhos emancipados, os que acham perder-se na Terra do Nunca.

Mas até a criança teve que crescer, esse o dito “realismo” amadureceu, peregrinou para o Brasil e lá encontrou uma outra dimensão, o sobrenatural. Será cliché comparar este Chuva e Cantoria na Aldeia dos Mortos como um anexo ao naturalismo para com o sobrenaturalismo de um Apichatpong Weerasethakul, porém, o contágio desse mesmo “olhar de ninguém”, que por sua vez é um olhar consensual, coletivo, adensa o que poderia ser um enésimo docudrama (subgénero hibrido que Portugal necessita acima de tudo renovar).

Seguindo de viagem para a Aldeia Branca, região no centro brasileiro, Salaviza filma a tribo Krahô, em especial atenção o jovem “pai de família”, Henrique Krahô. Mas até aqui o realizador, em conjunto com a estreante Renée Nader Messora (que trabalhou como assistente de realização em Montanha), demarca-se do ensaio antropológico. Não lhes interessa o documento de registo, mas sim o ativismo. A dupla preenche a trama de um índio perdido em terra de “Brancos” com ficção, passo atrás do então invocado realismo, passo à frente no misticismo tropical, o mundo invisível que estes indígenas temem e admiram. E sob esse olhar estrangeiro, mesmo o de Messora, que no fundo é uma “estrangeira” no seu próprio país, este que pertence à ancestralidade dos que vivem de acordo com a Natureza, que Chuva e Cantoria na Aldeia dos Mortos defronta-se como um silencioso pedido de luta.

A luta que se encontra à beira da ebulição pela deriva do nosso protagonista num mundo que não lhe pertence, o oásis “civilizado” em terra selvagem, onde o pastor prega o seu sermão em cada esquina, onde a glorificação do vaqueiro, o sertanejo e da masculinidade patriarcal estão presentes nas ruas e a discriminação “normalizada” que atravessa no seu caminho (“Krahô? Não. O teu nome de Branco?” pede a enfermeira durante o ato de preenchimento do formulário médico).

São lutas que ganham dimensão durante a narrativa mas que perdem força perante o real, o mundo que vivemos, cada vez mais perto e cada mais longe. Com isso, Krahô pede ajuda aos espíritos de outros tempos, talvez esse podem ajudá-lo a reencontrar o seu caminho, por entre a densa selva.

O filme é só uma parte de algo maior. Salaviza e Messora sabem perfeitamente disso. A luta pela dignidade indígena continua.

Hugo Gomes



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