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«Luz Obscura» por Hugo Gomes

 

Não se trata de obsessão, mas sim o de atribuir voz aqueles cujo silêncio tornou-se numa tortura e cujas vivências foram em si tortuosas perante um regime. Hoje, maravilhas são ditas e ensinadas sobre esses tempos negros, doutrinas que se entranharam no senso comum, para uma distorção histórica em tempos que caminham em direção da chamada pós-verdade.

"A História é feita com as mentiras dos vencedores" (Lawrence Ferlinghetti), neste caso são os derrotados a propagar os "factos alternativos" e a transformá-las em verdade perante um povo subjugado ao seu solipsismo. Contudo, sabendo o que é verdade, melhor, questionando o que é a verdade, olhamos para o trabalho de pesquisa de Susana Sousa Dias e entendemos essa vontade de denunciar e ao mesmo tempo proteger estas testemunhas de eventuais represálias. Com a voz que relata esse Portugal que ninguém quer pronunciar e sobretudo divulgar, Luz Obscura prova antes de mais ser um objeto de conscientização que foge dos lugares comuns da exploração quase pornográfica da vítima.

Mas aí reside o grande problema, a sua intenção por mais gloriosa que seja não o salva, porque a montagem entre as estáticas imagens, as fotografias que servem de corpus de estudo e os testemunhos "visíveis" sob a voz que ofega o espectador, são meros andaimes de um produto em construção. Não existe muito que diferencie a obra de outros produtos documentais acusados de linguagem televisiva, e conforme seja o processo narrativo indicado, é preguiça. Contudo, Luz Obscura é a preguiça na sua forma e não no conteúdo. Tal é a evidenciado quando percebemos que tal filme já havia sido feito, 48, com uma diferença de sete anos e sob as mesmas mãos.

Juntamente com Natureza Morta (2005), formado uma trilogia que desafia a propaganda generalizada do povo português, a estrutura apenas o  levará a um restrito tipo de espectadores, provavelmente aqueles a que relatos como estes nada adiantarão no papel de cinema-consciência. E é pena que vozes se perderão no perfeita obscuridade do elitismo cinematográfico, e o trabalho de investigação e de arquivo esteja embrulhado por um ensurdecedor minimalismo visual. Contas feitas, irá perder-se na chuva.


Hugo Gomes



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