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«Yomeddine» por Hugo Gomes

A primeira longa-metragem do egípcio de A.B. Showky caí sobre nós como um teste endereçado a uma hipocrisia gritante. Seremos capazes de odiar uma personagem tão desafortunada como este Beshay (Rady Gamal), um leproso (o ator detém tais deformidades) viúvo que parte numa jornada ao lado de um órfão, em busca do pai que o abandonou numa "colónia"?

Pois bem, Yomeddine desarma-nos. Questionamos quão humanos somos ou, na realidade, se somos seres frígidos sem qualquer compaixão. A verdade é que nunca não passa de uma manipulação. Ou isso, ou sou na realidade um corpo ambulante sem coração. Passo então a explicar: a certa altura deste episódio, o nosso protagonista reúne com um clã de "aberrações" (designação dada por este grupo) que o acolhe como membro de uma longa e família solidária (onde a diferença de cada um os une).

Como cinéfilo, a nossa mente transporta-nos diretamente a Freaks, de Tod Browning, o controverso filme interpretado por verdadeiras "monstruosidades". Contudo, mesmo envolvido em contornos do horror clássico (muito à frente do seu tempo e do nosso) e a uma essência de crueldade, Freaks tem a capacidade de causar no espectador a compaixão, sentimento que Yomeddine é incapaz de indiciar.  Aliás, o filme torna-se mais incapacitado que o próprio protagonista, vítima de uma condescendência profunda por parte da audiência, uma"delicadeza" de etiqueta no qual somos inertes em esconder.

Com um enredo perfeitamente banalizado, sem a criação de um universo trágico-caricato, como o fornecido, por exemplo, por um Kusturica (filmografia cujos elementos testemunhados poderiam nos levar), o filme peca sobretudo pela falta de ênfase dramática necessária para insuflar o discurso do nosso Beshay ("Eu sou um ser humano"). John Hurt atingiu esse pico com O Homem Elefante, mas convém salientar que o fez derivado a uma composição trabalhada por David Lynch em relação ao guião e na emotividade das suas personagens. Essa maturidade é inexistente em Yomeddine.

Contabilizamos hora e meia, nada mais, nada menos, de ganchos narrativos sem espessura, uma realização oscilante incapaz de amar o plano, a montagem amadora e improvisada que ostenta um automatizado desleixo. É um monstro, no sentido de apresentar um cinema nulo que nos apela ao lado samaritano. Diríamos que estamos perante de um filme desumano, que falsamente nos engana com intenções desencorajadas por profecias de solidariedade.


Hugo Gomes

 



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