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«A Quiet Place» (Um Lugar Silencioso) por André Gonçalves

De todas as ferramentas que um predador usa para caçar as suas vítimas, o som será porventura o mais crucial. Daí que nos pareça estranho que em 2018, quando tudo já parecia inventado no cinema de terror, o ator de comédias John Krasinski (The Office) tenha-nos dado um filme genuinamente atemporal e inventivo na sua premissa tão simples que parece impossível não nos lembrarmos de algo semelhante num passado recente. Não quero com isto dizer que este "Lugar Silencioso" não tenha tido génese em obras contemporâneas tão vitais para o género como Signs de M. Night Shyamalan ou Jurassic Park de Steven Spielberg, para citar as mais óbvias referências. Mas há tanto uma ingenuidade como um sentido de dever em (re)educar o espectador latentes aqui que, de facto, parece impossível na nossa era de ruído desenfreado.

Narrando uma história num espaço temporal que imaginamos ser próximo ao nosso, mas sem qualquer interlúdio que nos situe concretamente, o filme é desde logo reconhecido pelo seu trabalho de som ímpar. Começando num supermercado, onde a procura por mantimentos é tida como o mais silenciosa possível, somos aos poucos informados, por recortes de jornais e por anotações num quadro, dos acontecimentos principais. A saber: a Terra foi invadida por criaturas alienígenas, que aparentemente só reagem ao som para ouvir as suas presas. A dinâmica familiar de ansiedade em fazer o mínimo ruído torna-se, inevitavelmente a nossa - do espectador, mesmo quando o estilhaçar da pipoca e o som da palhinha na bebida ameaçam falar mais alto. E esse é de facto o grande trunfo deste filme. 

Krasinski demonstra de facto um talento, ou nato, ou muitíssimo bem aprendido para lidar com esta tensão, e com o quarteto de atores que tem à disposição (incluindo ele próprio). A dinâmica de casal na vida real entre o ator/realizador e Emily Blunt pode ter ajudado, mas de facto temos ali pelo menos o nascimento de uma nova estrela com Millicent Simmonds (Wonderstruck), se Hollywood realmente a quiser/conseguir incluir.    

Com Jordan Peele e Get Out, e agora Krasinski, parece que o terror é a nova comédia, i.e. a nova arma de luta para desconstruir o nosso tempo, assim validando mais uma vez a teoria que tempos políticos difíceis trazem como retorno as melhores histórias de terror - aquelas que realmente conseguem, quer metaforicamente ou literalmente, narrar o sofrimento humano, o sentimento de culpa, de luto, de resistência face à adversidade, de forma tão boa ou melhor que muito drama auto-intitulado e elitista que por aí ande. Um Lugar Silencioso está também aqui, mesmo com a sua dinâmica de jump scares e de ciclos silêncio-ruído-silêncio (talvez o que mais possa lembrar porque Michael Bay é produtor aqui, embora não deixe de conter uma ironia gritante), para nos lembrar disso. E para nos lembrar da sala de cinema enquanto espaço de comunhão.

Não é um filme perfeito, algumas opções estilísticas até a nível sonoro (inclusão de banda sonora, amplificar o som nos sustos) são ainda assim questionáveis, e poderão existir os inevitáveis buracos que uma premissa tão gulosa dificilmente conseguiria conter (a existência de jornais para começar, a não ser que operem ao pé de uma gigantesca cascata...). Existirão certamente filmes melhores em 2018, mas existirá experiência de sala tão memorável como esta? A fasquia ficou alta. 

 

André Gonçalves



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