Menu
RSS

 



«Gabriel e a Montanha» por Hugo Gomes

Por mais que Fellipe Barbosa (Casa Grande) renegue a natureza documental de Gabriel e a Montanha, é percetível que o realizador utilizou as mesmas ferramentas que se poderia levar a cabo num cinema de investigação. A fronteira entre o documentário e a ficção é um dilema há muito debatido, até mesmo quando o Cinema caminhava a passos largos na sua evolução, mas hoje, tendo em conta a vontade e a facilidade de filmar, as duas dimensões parecem cada vez mais diluídas ao encontro de uma só linguagem.

Bastante divergente da essência docudrama à portuguesa, Gabriel e a Montanha é uma tese documental, a apropriação da trágica história de Gabriel Buchmann, um economista brasileiro que apaixona-se pela África subsariana e determina-se a integrar as mais diferentes comunidades. É um ensaio que tenta responder as questões levantadas desde que o caso tornou interesse dos Media (Gabriel foi encontrado sem vida no Monte Mulanje, no Malawi, em 2009), enquanto impregna uma vertente ficcional que coloca em claro o seu lado biográfico, sempre em conformidade com a encenação fiel dos locais e personagens reais.

Sim, foi um trabalho de pesquisa que levou a conceção desta viagem do homem que gradualmente despe a sua ocidentalização, assim como Sean Penn concretizou uma outra descida ao selvagem em 2007 (Into the Wild), este último sob moldes do storytelling.

Porém, não devemos desvalorizar esse lado ficcional perante o árduo trabalho do realizador-investigador, em cumplicidade com o ator João Pedro Zappa a interpretar o derradeiro peregrino. Gabriel e a Montanha explicita um retrato humanista do protagonista, para além de, ao contrário de muitas cinebiografias, não glorificar totalmente a figura, espelhando-a numa logística de complexidades.

Fellipe Barbosa apresenta assim uma homenagem, um tributo assim por dizer, que atravessa as mais diferentes fronteiras da linguagem cinematográfica, ora sobre uma perspetiva etnográfica, geográfica e porque não uma experimentação do seu lado documental, de forma implementá-lo como a nova haste de um cinema sem fronteiras de género.

Hugo Gomes 



Deixe um comentário

voltar ao topo

Secções

Contactos

Quem Somos

Segue-nos