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«Pop Aye» por Aníbal Santiago

Pop Aye é um filme de enorme coração, que conjuga com acerto o humor e o drama, enquanto vagueia pelas convenções dos roads movies e conta com uma peculiar dupla de personagens principais. Entre essas convenções encontra-se a viagem como um meio do protagonista reencontrar-se e lidar com os seus problemas ao mesmo tempo que conhece uma série de figuras que o marcam e depara-se com uma miríade de situações. A atribuir um tom meio surreal à obra encontra-se o simpático elefante do título, um ser que acompanha regularmente o protagonista. A escolha desta espécie não parece ter sido efetuada ao acaso, uma vez que ela aparece muitas das vezes associada à memória, ao companheirismo e à amizade, três baluartes da primeira longa-metragem realizada por Kirsten Tan e da ligação entre Pop Aye e Thana (Thaneth Warakulnukroh), um arquiteto de meia-idade que se encontra a atravessar uma crise.

Após alguns flashbacks, ficamos a saber que Thana encontrou o elefante em Bangkok, tendo desde logo reconhecido aquele que foi um dos seus companheiros de infância, algo que o leva a adquirir o animal. Ambos parecem deslocados da sociedade que os rodeia: o personagem principal tem uma relação matrimonial instável e foi colocado de lado na empresa onde trabalha, enquanto Pop Aye é um dos muitos elefantes que foram retirados do seu habitat natural. É então que o arquiteto decide viajar com o mamífero para Loei, um local onde cresceram na companhia do tio Peak (Narong Pongpab). A viagem é pontuada por uma série de episódios que permitem expor algumas das especificidades da Tailândia e a amizade da dupla de protagonistas, para além de dar a conhecer algumas pessoas que deixam marca no arquiteto, tais como Dee (Chaiwat Khumdee) e Jenni (Yukontorn Sukkijja).

Dee é um errante que acredita que vai morrer dentro em breve, com a paz deste personagem em relação ao seu destino a contrastar com a inquietação de Thana no que diz respeito à sua vida e às mudanças da sociedade e dos espaços que o rodeiam. Já Jenny é um travesti que trava conhecimento com o protagonista num bar, com a dupla a protagonizar um número musical dotado de emoção e a trocar diálogos que compelem o segundo a tomar uma atitude transgressora. Com um guarda-roupa que realça a personalidade simples do seu personagem, Thaneth Warakulnukroh consegue exprimir as inquietações e a melancolia do arquiteto, o afeto que este nutre pelo elefante e a dificuldade que tem em lidar com os efeitos da passagem do tempo. Diga-se que Pop Aye surge quase como um símbolo da infância do protagonista, com a sua presença a trazer ao de cima as memórias de um tempo que Thana parece querer recuperar, embora a viagem contribua para confirmar o óbvio: nada permanece imutável.

Os espaços rurais por onde os protagonistas circulam exacerbam exatamente essas mudanças, com as transformações territoriais a contribuírem para a situação em que se encontra o elefante. O seu nome remete para o célebre desenho animado, enquanto a sua presença contribui para algumas situações pontuadas quer pelo humor, quer por uma atmosfera carregada. A comédia e a tragédia estão sempre muito presentes. Veja-se como a descoberta de um vibrador tanto proporciona alguns momentos de humor como simboliza o distanciamento de um casal. A própria viagem conta com episódios que variam entre a leveza e a aspereza, ou não estivéssemos perante um périplo onde a vida e a morte, a alegria e a tristeza, o passado e o presente, a estranheza e a banalidade, a imprevisibilidade e a previsibilidade aparecem colocados eficientemente em diálogo.

A forte ligação entre o elefante e Thana é algo que eleva o filme, bem como a decoração e o aproveitamento de alguns cenários. Observe-se o bar dotado de luzes de cores quentes que exacerbam a atmosfera meio surreal e inquieta dos episódios que ocorrem no interior do estabelecimento. Já os flashbacks nem sempre são inseridos de forma harmoniosa (muitas das vezes contribuem para não deixar o mínimo espaço para a nossa imaginação), tal como a relação entre o protagonista e a esposa (Penpak Sirikul) nunca é explorada a fundo, ainda que os acertos da fita sejam maiores do que os seus deslizes. Tan não procura fugir aos lugares-comuns, ou das convenções, embora isso não diminua a sua capacidade de transformar Pop Aye num road movie dotado de sentimento, alma e uma simpática dupla de protagonistas.


Aníbal Santiago



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