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«The Killing of a Sacred Deer» (O Sacrifício de um Cervo Sagrado) por Carlos Abreu

Segundo os preceitos do cristianismo, a vida é um equilíbrio entre sofrimento e felicidade: às boas obras és recompensado, pelo mal és castigado. Imaginem que este equilíbrio, em conjunto com o do próximo – aqueles que nos perpassam diariamente – cria uma rede maior, uma rede de bem e mal, um equilíbrio ténue. Se este equilíbrio é governado por Deus, pelo destino, por aleatoriedades físicas, conforme se queira, no novo filme de Yorgos Lanthimos, um adolescente (Barry Keoghan) pode tomar as rédeas de um pequeno deus em busca de justiça. O que ele representa irá pôr à prova um médico (Colin Farrell), do mesmo modo que Abraão foi posto à prova segundo o Antigo Testamento.

É o típico Yorgos; em Alps, filme do grego de 2011 o realizador abordava a temática da morte, um grupo de auto-escolhidos que se predispunham a substituir entes queridos falecidos recentemente. A ideia seria minimizar o sofrimento dos parentes, um negócio no mínimo invulgar. Uma espécie de industrialização de sentimentos, pessoas transformadas em máquinas, o próximo grande passo do capitalismo. O melhor trabalho do realizador é Canino de 2009, nesse filme, um casal, recriam um exercício de condicionamento clássico com os filhos. Como a privação das experiência nos torna mais próximos da nossa animalidade e dos desejos mais primitivos e como somos moldáveis na ausência.

Tanto em Alps como neste último, The Killing of a Sacred Deer, não haveria necessidade de materializar o espetáculo sacrificial, os terceiros atos não são o forte de Yorgos Lanthimos. Talvez beneficiasse se o filme terminasse em suspenso, como uma porta aberta, como oportunidade de reflexão, deixá-lo como dádiva alegórica ao espectador, ao invés de remata-lo em versão Hollywood atabalhoada.

Os filmes de Yorgos, embora repletos de análise metafísica, estão mais próximos da matematização de um sistema, uma espécie de binário, o binário de Yorgos, ser ou não ser, existir ou morrer!

Para 2018, Yorgos tem The Favourite, ao que parece um filme de época com Emma Stone e Olivia Colman, um retrato de intriga na corte da Rainha Ana da Grã-Bretanha passado no século XVIII.

Estranheza? Não. Expetativa? Sim. 


Carlos Abreu



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