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«D'après une histoire vraie» (A Partir de uma História Verdadeira) por Hugo Gomes

Como poderemos definir o cinema de Roman Polanski? Os espaços que se limitam enquanto o drama das suas personagens é dimensionalmente amplificado? Ou pelas tramas embutidas nas páginas de um livro, a criação que toma lugar frente ao seu criador? É certo que esse fascínio pelo mundo literário da última questão, representa em parte uma grande fatia do que é o cinema de Polanski, sobretudo quando o imaginário escrito assume uma materialização na ambiência do protagonista.

Recordo que Johnny Depp procurou o livro do Diabo, mas foi o livro que acabou por encontrá-lo, direta ou indiretamente. Ewan McGregor procurava estrelato no seu anonimato, e sem saber tornaria-se uma personagem fulcral da sua ficção. Mathieu Amalric concentrava o texto de von Sacher-Masoch, esperando-o situar num palco de teatro; no virar do ato, tornou-se involuntariamente o ator desse mesmo mundo. Estes são exemplos de que o perseguido (escritor) torna-se o alvo da sua criação ou objetivo (o livro), e A Partir de uma História Verdadeira não foge à regra.

O duelo psicológico de duas mulheres que tentam debater-se na dominância social, onde por sua vez poderemos encaixar uma crise identitária. É mais um fruto de dicotomia entre criador / criação. Porém, o resultado nesta página é de um revisitar aos lugares-comuns desse cinema habitué de Polanski, o apartamento que se joga como tour de force para a entrada da sua narrativa, a obsessão que realinha a psicologia das personagens, e os livros que tomam o núcleo deste vértice, o qual chamaremos de thriller polanskiano.

Emmanuelle Seigner não é uma novata neste mesmo universo e nisso é evidente na sua naturalidade com este voyeurismo (atenção leitor, não confundir com a vida privada do mesmo, discutida e debatida por diferentes meios). Todavia, é Eva Green que concentra o polo magnético desta mesma “raiz do medo”. A atriz, a joia que brilhou em The Dreamers (Os Sonhadores), de Bertolucci, cresceu e tornou-se uma mulher feita, mas a sua atitude provocatória continua em voga e os seus movimentos corporais articularam-na como uma moderna “femme fatale”. A fatalidade da sua figura, mais a vitimização de uma escritora em fraca inspiração, A Partir de uma História Verdadeira joga-se eficazmente como um trabalho de atrizes subjugadas ao olhar perverso de quem é encontra-se apto a distorções psicológicas.

Na teoria, eis um plano de execução à imagem de Persona, de Ingmar Bergman, o confronto existencial e mental de duas “personas” que embatem na diluição de uma só figura. Na pratica, Polanski não possui a sensibilidade de Bergman, mas sim uma depravação tremenda, cúmplice de loucuras e delírios obsessivos. Aqui o espectador duvida quanto à sua intenção e, no final, o desconhecido torna-se na resposta lógica. Infelizmente, os resultados deste caminho leva-nos a conclusões mais preguiçosas e fáceis. A dicotomia exposta converte-se na pista mais óbvia na natureza do seu twist.   

Hugo Gomes



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