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«120 Battements par Minute» (120 Batimentos por Minuto) por Hugo Gomes

‘Descansa soldado, a luta interrompe para o provisório repouso.’ Eles são os militantes ACT UP, defensores do slogan “Quero Viver”, mais que isso, um ativismo fortemente instituído numa sociedade discriminatória que prefere olhar de lado do que atentamente perceber o seu redor (a questão dos seropositivos na entrada de 1990, subjugados às negligências e ao desdém político-social). São os soldados dessa luta inglória, até porque aquilo que rogam é simplesmente uns anos mais, uns dias mais, ou, para menor das causas, umas horas a mais. Mas agora tal não interessa. A batalha intervalou. Recomeça amanhã. Os corpos dos combatentes bailam freneticamente ao som do escapismo, a “batida” que lhes invade as mentes, conforta o espirito, eporque não, o físico vigilante, preparado para mais uma ronda. Mas o corpo destes não é mais que um mero velcro, um casulo onde moléculas interagem, vivem, nascem, morrem, ou simplesmente presenciam o Momento. Com a respetiva vida por um fio, o viver o momento é o mais forte dos prazeres.

Por entre folias e o percurso de punhos erguidos, 120 Battements par Minute faz-se por um ritmo inconstante, uma partitura de guerra onde o rancho dos soldados tombados, ou em vias de tombar, adquire uma importância dimensional neste eterno confronto. Depois de Eastern Boys, o franco-marroquino Robin Campillo regressa ao universo Queer (talvez nunca tenha saído de lá), palavra que os meros adeptos de etiquetas persistem em catalogar. Mas o que vemos não é um enésimo caso “armareado”, é um coletivo retrato de todos nós.

Fora géneros e orientações, 120 BPM é um filme sobre a celebração da vida e o quanto queremos residir nesse “bailado”. Até a morte, maioritariamente induzida como assombração, revela-se uma celebração quando surge, anunciando a chegada de uma nova etapa. Se a vida é na realidade uma compostura de etapas, daquelas que nos comprometem com novos desafios, objetivos e porque não, amores, 120 BPM usufrui desta metamorfose cíclica de forma a estruturar uma narrativa aberta, sem a recolha de moralismos-objetivos, mas o de simular a vida em mudança através do seu ritmo desalinhado.

Desalinhado … e sob a luz de diferentes cocktails. A hibridez dos teores ocasionalmente nos proporciona uma transposição de imagens, transportando o espectador para além das dimensões. A danceteria que se converte gradualmente num ensaio de moléculas, representações viventes que se estabelecem ou desintegram. A beleza desta experimentação estética condensa a sentença destes guerreiros condenados que se refugiam, temporariamente, numa bolha social.

Determinados em defender a igualdade, a possibilidade de conservar a vida que possuem em prol das mudanças do seu sistema social, uma contradição visto que 120 BPM é uma obra de extremo contágio com os solavancos da longevidade (o destino que nos espera ou que nos faz esperar), e que encontra em Nashuel Pérez Biscayart o melhor dos peões, nessa submissão pelas mesmas e gritantes nuances.

E assim, depois do conflito que intercala esse mesmo trilho, os soldados repousam mais uma vez. Não basta somente combater. Há que aproveitar esse sabor de utilidade e instituir nele um código. A vida tem destas coisas e, de certa maneira, o Cinema também.

 
Hugo Gomes


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