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«Murder on the Orient Express» (Um Crime no Expresso Oriente) por André Gonçalves

Após aventuras pela Marvel (Thor) e Disney (Cinderella), Kenneth Branagh voltou aos nossos cinemas para readaptar o clássico Crime no Expresso Oriente de Agatha Christie, popularizado por uma versão cinematográfica em 1974. Não é Shakespeare (o seu "autor fetiche"), mas revela pelo menos uma vontade de voltar a priviligiar a narrativa e a direção de atores acima de qualquer capricho de estúdio.  

Tal como a versão de 1974, Branagh conseguiu muita da nata de Hollywood para fazer os catorze papéis principais deste whodunnit (para além do próprio realizador no papel do inspector Poirot, temos Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Penélope Cruz, Judi Dench, Daisey Ridley, etc. ). E à semelhança do que aconteceu também este ano com The Beguiled de Sofia Coppola, houve liberdade criativa para imprimir um cunho pessoal do autor cinematográfico sobre o autor da obra literária. Este crime, sendo em primeiro lugar de Christie, revela até os contornos "shakespeareanos" que marcam também uma grande parte da obra de Branagh, poderíamos argumentar: uma tragédia como meio de revelar uma fratura da alma humana. 

A tragédia será dupla, saberemos - ou já sabemos, dependendo da nossa familiaridade quer com o romance, quer com a adaptação anterior. Pois bem, o realizador, produtor e ator (e letrista, se quisermos acrescentar!) tem aqui a tarefa herculeana (de Hércules, matador de leões, não de Hercule) de agitar um pouco este comboio. E assim o faz. Claro que a solução manter-se-á constante, mas há clara intenção em separar-se do que foi feito antes, sobretudo em termos de realização. A aposta em expandir horizontes, ao "brincar" com a câmara para revelar o exterior da ação, e o interior do comboio através do exterior (em travellings) revela geralmente opções acertadas para além de sempre vistosas. Algumas opções podem fazer levar mãos à testa. Colocar uma avalanche a fazer descarrilar o comboio logo após o crime ter sido cometido é uma opção demasiado literal, e creio que foge ao livro. Já outra imagem religiosa famosa pareceu-me melhor utilizada no clímax, mas claro, isto fica ao critério da sensibilidade de cada um. 

O sentido de humor é aqui ainda mais realçado; assim como, lá está, a tragédia moral que encerra este crime. A direção de atores é tão sólida que conseguimos aguentar Josh Gad. Branagh revela-nos um Poirot simultaneamente mais ácido e romântico do que nos lembrávamos. Pfeiffer, acima de tudo, fecha aqui o seu ano de regresso com chave de ouro, neste papel "meta" que se revela chave para a catarse final - Branagh está tão enamorado por ela (como todos nós) que lhe compôs uma canção para ela finalmente voltar a cantar, quase 30 anos volvidos sobre Os Fabulosos Irmãos Baker, que pode ser ouvida nos créditos finais.    

As facas estavam já erguidas para este projeto, antes mesmo deste ser completado, portanto será difícil adivinhar que tipo de papel poderá desempenhar como complemento do filme de 1974 na maioria da população. Na minha opinião pessoal, ambos são imperfeitos, não existindo propriamente uma supremacia clara de uma adaptação sobre a outra. Sidney Lumet tinha fechado atores de elite num comboio, sem ter propriamente um propósito claustrofóbico; Branagh libertou-os um pouco - seguiu o conselho do seu Hercule Poirot: desceu à terra, largou o certo e o errado como únicos valores, e agiu com o coração. 

André Gonçalves



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