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«End of Life» por Jorge Pereira

Entre o importante e o meramente banal, fala-se de Deus, de religião, de livros, de elefantes, de perseverança, de maquiagem e muito mais neste End of Life, filme onde John Bruce e Paweł Wojtasi (com a coprodução da grega Athina Rachel Tsangari) viajam pelo universo de pessoas em vários estágios no processo a caminho da morte, tudo apresentado como verdadeiros epílogos existenciais que revelam a fragilidade humana, a noção de mortalidade e onde tudo se funde de forma mais ou menos harmoniosa.

Este acompanhamento até à morte não é inédito em registos documentais ou híbridos, e ainda há uns anos atrás o brilhante Before We Go, de Jorge Léon, mostrava esse estudo e desconstrução da condição humana, culminando num último suspiro de companhia/motivação na forma da Arte, enquanto se aguardava num purgatório onde os objetos de análise já se encontram em clara degradação física e mental.

John Bruce e Paweł Wojtasi, que durante quatro anos trabalharam com cinco indivíduos e tiveram formação em morte assistida, acompanham essas almas sofridas como se o processo de ir «para o outro lado» fosse mais fácil com a sua presença e a da sua câmara a filmar. Esta, sempre atenta e subjetiva, viaja de forma intermitente num jogo visual entre o baço e o límpido (vidas esbatidas em busca de uma última resplandecência), onde não faltam mesmo momentos onde a lente se desliga, ficando o espectador entregue à narração, ou a uma visão num branco e negro granulado que tenta mostrar a obscuridade dos últimos momentos de vida.

O resultado final é um trabalho visualmente belo, poético, mas ainda assim exíguo, mais rico na forma que no conteúdo, onde a degradação se amontoa em close-ups introspectivos e o último suspiro em planos de conjunto que interpõe um caminhar não tão solitário até ao último destino.

Ainda assim, e como Mellville dizia em O Acossado, de Godard, a derradeira ambição é tornar-se imortal e depois morrer. Estas almas conseguiram isso, a imortalidade através de um trabalho visual para a eternidade e vidas que se preencheram de forma grandiloquente. Agora que venha aquilo que estamos todos à espera, a extinção, e tenhamos essa experiência como algo que completa o círculo da Vida.


Jorge Pereira



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