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«Risk» por Jorge Pereira

O nome de Laura Poitras, a cineasta por trás do absolutamente obrigatório Citizenfour, é facilmente dos mais incómodos para as autoridades norte-americanas, que continuam a tê-la numa "watchlist" permanente que dificulta bastante a sua entrada e saída do país. Mas não foi preciso o filme sobre Edward Snowden para isso acontecer. Na verdade, foi logo após a execução do documentário sobre a ocupação do Iraque, My Country, My Country (2006), que a documentarista ganhou nome nas secretas americanas. O seu trabalho posterior sobre a prisão de Guantánamo, The Oath (2010), ajudou mais ao seu estatuto de persona non grata, sendo frequentemente pressionada a partilhar com as autoridades as informações ou material que possa ter consigo, seja sobre Snowden, seja sobre Julian Assange, o fundador da WikiLeaks que neste Risk é o centro das atenções, e que tem sido objeto de inúmeros documentários (como We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks, de Alex Gibney) e obras de ficção, como The Fifth Estate.

Quer se goste ou não de Assange, da WikiLeaks e do seu modus operandi, há um facto indesmentível. Essa plataforma tem servido para divulgar alguns dos maiores escândalos mundiais, seja através da publicação de documentos classificados do Departamento de Estado dos EUA ou da National Security Agency (os casos Bradley/Chelsea Manning e Edward Snowden), seja na divulgação de e-mails privados da Sony (com enormes consequências na indústria do Cinema), ou mensagems comprometedoras de Hillary Clinton (que muitos consideram terem sido decisivas para a eleição de Trump).

Poitras admite o seu fascínio inicial por Assange e pela WikiLeaks, até porque achava que quando esta plataforma foi criada, se iria transformar numa forma de novo jornalismo. Porém, o que assistimos neste Risk, um trabalho que mostra Assange após publicar documentos classificados dos EUA, é acima de tudo a queda de um mito e a destruição da imagem de um herói, algo que tanto marcou a personagem central de Citizenfour, com as devidas reticências implementadas pelo próprio Snowden que nunca se considerou como tal.

Em Risk, o que sobressai, para além da reclusão,  é o desfilar do ego e arrogância de Assange, uma personagem de que Poitras a certo ponto chega a dizer: «É um mistério porque confia em mim, pois não creio que goste de mim»Apresentado como alguém que dirige a sua organização como uma agência secreta, Poitras apresenta entre entrevistas, reuniões e diversas conversas telefónicas o modo como Assange ficou catalogado como traidor pelos EUA e herói pelos defensores da liberdade de expressão, isto enquanto paralelamente fala do caso em que o australiano foi acusado de violação, e o momento em que se refugiou na embaixada do Equador. A forma como este também se submete a entrevistas bizarras, como com Lady Gaga, revelam também uma estratégia de marketing, um desfile de aparências, um circo ambulante de alguém que gosta da atenção e do seguidismo, muito longe do cariz essencial que a sua ferramenta global representa.

Tal como Citizenfour, a técnica utilizada para apresentar os factos, é bastante simples, sem grandes artifícios ou dons artísticos, mas neste Risk ficamos permanentemente com a sensação que falta informação e que o nosso foco, Assange, cada vez se distancia mais dos próprio trabalho de Poitras, até ideologicamente, especialmente depois do caso Snowden*. O trabalho de montagem está também a léguas do que deveria ser, talvez pela ausência de material realmente interessante (às vezes parece que estamos em The Office), mas o certo é que tudo soa demasiado esparso e fragmentado, onde até os pedaços de texto que contextualizam alguns detalhes da época soam a legendas que tentam segurar o que a montagem e realização não consegue.

Nisto tudo, Risk soa efetivamente a um trabalho inacabado e a um retrato escasso e incompleto de um protagonista da história política do novo milénio e a forma como o surgimento da WikiLeaks valorizou ainda mais o termo de «informação sensível».


Jorge Pereira

* a certo ponto neste documentário, Poitras explica como recusou fornecer a Assange os dados que Snowden desviou da NSA

 



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