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«Carré 35» por Jorge Pereira

Se Petra Costa, no seu fabuloso Elena, materializa a saudade de uma irmã pela outra através de uma aprimorada estética que nunca abandona o lado mais intimista e pessoal, Eric Caravaca elabora neste seu Carré 35 uma busca sensível mas incisiva e precisa a um «fantasma» que acompanha a sua família desde sempre.

Logo no início o cineasta mostra os objetivos: descobrir o que aconteceu com a sua irmã falecida ainda antes de ele e o seu irmão nascerem, uma história com demasiadas pontas soltas e que se irá revelar como uma dolorosa descoberta das suas próprias origens, tudo num período onde a descolonização da Argélia ganhava forma. Porque teriam tantos selos de visita os passaportes dos seus pais no dia em que a criança faleceu? Em que circunstâncias morreu ela, e porque nesse mesmo dia a sua mãe partiu de Orly (Paris) para Casablanca e o seu pai de Argel para o mesmo local?

Recorrendo a entrevistas, velhas fotografias, alguns filmes em Super 8 e uma mão cheia de incertezas, o cineasta parte em busca de respostas, viajando paralelamente aos acontecimentos políticos e sociais que marcaram esses tempos, e estabelecendo comparações entre as histórias pessoais da sua mãe & pai e o colonialismo, o qual estava à beira de desconstrução.

O resultado? Este resume-me a uma das frases essenciais deste trabalho extremamente pessoal: «Uma criança morre e a civilização colonial também, tudo deve ser esquecido, deve-se ultrapassar a dor, e uma nova vida deve começar».

Carré 35, numa referência ao cemitério onde a irmã está enterrada, é um trabalho bem conduzido e conseguido (tecnicamente), onde, apesar de todas as emoções, revelações e dor, o cineasta é ainda capaz de executar aprofundadamente uma reflexão à morte, à família e à História.


Jorge Pereira



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