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«Jeune femme» (Montparnasse Bienvenüe) por Jorge Pereira

Estás na merda?", pergunta a certa altura uma mulher a Paula, a nossa protagonista, após a "reencontrar" anos depois da escola primária. Paula diz que não, mas nós sabemos que aquela rasgão na testa, todos os seus tiques nervosos e marcas de cansaço em torno dos olhos são imagens de marca de uma mulher que no primeiro terço do filme tenta desesperadamente falar com o ex-companheiro que a abandonou.

O resto é o processo evolutivo da sua condição psicológica, o encontrar um novo rumo - sempre com o gato do ex-companheiro ao lado - para uma vida que a afastou da realidade e de todas as pessoas que conhecia.

Nisto, e apesar de alguns diálogos interessantes e da lente sagaz e fotográfica da argumentista e realizadora Léonor Serraille, o que sobressai acima de tudo é Laetitia Dosch, a atriz que assombrosamente vai através das expressões e palavras nos contar a sua solidão e obstinação, o seu processo de cura natural e de crescimento pessoal sem qualquer toque dos livros de auto-ajuda que tanto povoam as livrarias numa espécie de auto-comiseração para "encalhadas".

São poucas as palavras para descrever Dosch, atriz que trabalha em vários níveis e entra na sua personagem quase forma fantasmagórica, vagueando entre humores e estados de espírito com uma capacidade de transformação imediata e profundamente natural. A sua expressão, entoação e a habilidade com que evoca as palavras do guião, transformam-na numa mulher plena de força, uma sobrevivente à desilusão amorosa, à deslocalização geográfica (é de Lyon, vive em Paris) e consequente isolamento de verdadeiras amizades. Isto vestida numa personagem que poderia fazer parelha com uma Gena Rowlands nas mãos de John Cassavettes, ou na Sue (1997) de Amos Kollek, que a própria cineasta confessa te-la inspirado.

Uma nota ainda para a aptidão de Serraille para reger universos femininos fortes, mas sempre sentimentais, dando toda a humanidade do mundo a uma personagem que não consegue escapar nunca a situações burlescas que refletem a sua condição e à presença de figuras secundárias tão atípicas, como interessantes, embora nunca sejam bem exploradas.

No final, os olhos bipolares da protagonista refletem bem os estados diferentes em que a encontramos ao longo do filme.


Jorge Pereira



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