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«Compte Tes Blessures» por Jorge Pereira

A falta de comunicação entre um pai (Nathan Willcocks) e um filho (Kévin Azaïs) é o ponto central deste Compte tes Blessures, a primeira longa-metragem dirigida por Morgan Simon, jovem cineasta lançado pela prestigiada FEMIS na área de argumento e que teve neste guião o seu trabalho de final de curso, com direito a polimento da última versão por parte de Julia Ducournau, a realizadora de Grave.

Repleto de energia e raiva, Vincent, 24 anos, é o vocalista tatuado e carismático de uma banda que vê a sua vida ganhar uma nova dimensão com a chegada de Julia (Monica Chokri), a nova mulher na vida do seu pai por quem se vai sentir atraído.

Já presente em algumas curtas de Simon, a música pesada e a estética das tatuagens têm aqui a forma de adereços identitários, seja o post-hardcore de Vil Day Diary que Vincent canta até ficar rouco, seja o sensual Merengue de Elvis Crespo que Júlia prefere dançar, ou o romântico Julio Iglesias que o pai do rapaz vê na sala.

E se Vincent é filmado frequentemente com close-ups e planos de detalhe para mostrarem a tensão e sentimentos contraditórios que povoam a sua mente, a Willcocks (ator fetiche de Simon) é dada uma profundidade laboral e paternal que mostra as dificuldades quotidianas de educar um filho sozinho com o qual não consegue comunicar e parece sempre querer competir.

Mas de tudo isto o que fascina mais no trabalho cru e cruel de Simon é a complexidade e a teia em que envolve pai e filho numa disputa familiar onde não haverá um verdadeiro vencedor e que vai descambar vertiginosamente numa das mais interessantes e impiedosas sequências do cinema francês recente (Coucou, Kim Ki-Duk).

Dito isto, Compte Tes Blessures é uma bomba de tensão, sensualidade e derradeiramente perversidade em que ninguém sai ileso.


Jorge Pereira



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