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«Zombillénium» por Jorge Pereira

À vista desarmada, como ouvi uma criança dizer no final da sessão, Zombillénium parece um primo de Hotel Transilvânia, nem que seja por ter vampiros, lobisomens, múmias, bruxas, fantasmas e outras criaturas como os protagonistas. Porém, sendo esta animação 3D de origem franco-belga e baseada numa banda desenhada criada pelo próprio realizador, Arthur de Pins, estamos perante um filme bem mais abrangente, adulto e frontalmente político, algo que não acontece nas animações norte-americanas atuais (pelo menos de forma tão explicita) que chegam às salas comerciais.

O conceito é simples: estamos no norte de França, local onde a maior atração da pequenada é um parque temático, o Zombillénium. Os monstros trabalham aí para escapar ao escrutínio popular e fugir ao Inferno. Quando Hector, um inspetor do trabalho, visita o local para ver se tudo está em conformidade com a lei, é transformado numa dessas criaturas, deixando a pequena filha orfã e entregue a um colégio interno (a mãe também já tinha falecido).

Com a chegada de Hector ao mundo dos monstros, chega também a mensagem política. Pins, que já tinha construído uma curta em 2010 chamada a Revolução dos Caranguejos, sobre um crustáceo que decide ir contra a sua natureza e mudar de rumo, cria neste parque temático uma nova revolução, a dos mortos-vivos, onde não falta o sindicato - há cartazes que anunciam a Intersindical dos Zombies - e investidores em busca do lucro máximo.

Vistos como feios, assustadores e inferiores (a eterna luta de classes), em particular pelos vampiros, que entretanto se tornaram ícones charmosos para os visitantes, os zombies levantam-se contra os opressores, havendo também por aqui uma mensagem bem clara às novas tendências da literatura e cinema, com uma estaca espetada especialmente no coração de Twilight: a transformação dos vampiros em símbolos culturais sexualizados para os adolescentes, fugindo assim àquilo que sempre foram: criaturas que provocavam o medo.

Ao capitalismo, que acaba por ser o grande foco do filme a par das relações familiares como mais abaixo veremos, pouco importa se as pessoas querem sentir medo ou fascínio, desde que o dinheiro flua. Tampouco importa se quem lidera são zombies ou vampiros (na linha de Twilight, Sangue Quente tentou fazer um romance zombie).

Na verdade, o parque temático e o enredo apenas replicam o que acontece nos dias de hoje em todas as empresas, acabando por ser toda esta fita uma enorme alegoria do mundo do trabalho em que vivemos. E apesar de alguns textos nervosos vindos dos EUA, com a Variety a declarar quase o filme como uma lavagem cerebral Marxista para a mente dos jovens franceses, Pins e Alexis Ducord, o corealizador, vão aplicando ferroadas a um lado e outro da lei do mercado, sendo particularmente hilariante a forma como apresenta os sindicatos, mesmo caindo demasiadas vezes nos estereótipos fáceis (o mesmo se aplica no tratamento aos investidores-patrões).

Paralelamente a isto, o duo de cineastas nunca se esquece do outro caminho da narrativa, o da importância das interações familiares, aqui tratados com particular destaque, mas sem grande profundidade, na relação de dois pais com as filhas, Hector & Lucie e Gretchen & Diabo*, - e entre pessoas de diferentes gerações (a guerra musical entre Hector e Gretchen é um mimo).

Se é verdade que o filme nunca triunfa plenamente em todas estas dimensões, é correto também dizer que pelo menos tem mais que uma camada; é que se os miúdos não vão entender muitas das piadas e referências políticas e culturais - a música electro rock e neo punk de Mat Bastard, as t-shirts de NIN e o famoso Leave Britney Alone, ou o "thriller" de Michael Jackson, sem se usar a música porque a produção não tinha dinheiro para comprar os direitos-, também é verdade que se vão divertir com os outros elementos mais familiares aos seus olhos: a injustiça, as relações paternais e o humor slapstick universal.


Jorge Pereira

* é curioso que até o Diabo hoje foi transformado em algo sexy, com a série Lucifer a dar cartas na TV



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