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«El guardian invisible» (O Guardião Invisível) por Jorge Pereira

A explosão dos policiais nórdicos tem marcado a literatura contemporânea, tendo surgido, com mais ou menos qualidade, mais ou menos inovação, e mais ou menos personagens com carisma, autores nesta região – como Jo Nesbo, Camilla Lackberg, Lars Kepler, Liza Marklund e Arnaldur Indridason - que replicam a velha questão que os mais clássicos sempre o fizeram na sua obra.

Edgar Allen Poe, Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Georges Simenon e Raymond Chandler sempre povoaram os seus trabalhos com o velho Who did It?, o apaixonante 'quem matou?', questão que também invadiu o cinema, com o inesquecível Alfred Hitchcock à cabeça, ou a TV, com subprodutos que conquistaram multidões, fosse um Crime disse ela ou um Columbo e a sua famosa gabardine.

Falar de Dolores Redondo, a autora da trilogia de Baztán, onde se inclui este O Guardião Invisível, é falar desse legado e dessa tendência moderna manietada por um público faminto de mentalmente jogar ao Cluedo.

Talvez o segredo, que não é bem um segredo, é criar nessas novelas policiais personagens com suficiente drama e marcas distintivas que as transformam naquilo que são hoje: mais ou menos complexas, quase sempre ambíguas, entre a obsessão e o profissionalismo, e quase sempre como figurinhas antiheróis repletos de demónios interiores, como a hacker Lisabeth Salander da saga Millennium.

No caso de O Guardião Invisível, essa figura proeminente é Amaia (Marta Etura), investigadora (a fazer lembrar a obcecada Mireille Enos na série The Killing), a qual regressa à região onde nasceu para desvendar quem está por trás de alguns assassinatos violentos. A este componente policial é acrescentado o thriller à americana, com uma viagem ao universo dos assassinos em série, sejam eles movidos por questões morais, religiosas, traumáticas ou meros narcisistas em busca de protagonismo e poder.

Há ainda um outro elemento, que a meu ver, em conjunto com a unicidade e carisma das personagens, se revela fulcral para uma obra desta índole: o local onde tudo ocorre. No caso deste filme de Fernando González Molina, esse espaço é o vale de Báztan, marcado por paisagens imponentes e enigmáticas, um clima chuvoso e um isolamento histórico crónico que levou mesmo à criação de uma mitologia muito própria e a relações familiares marcadas por uma imponente figura matriarcal na região.

Somando todos estes elementos, Redondo criou assim um blockbuster da literatura, editado em mais de 30 países, incluindo Portugal, o qual chegou às mãos de um realizador habituado a obras muito mais jovens e de maior candura. Molina trespassou o livro para o cinema num trabalho formal e académico sem grandes laivos de atrevimento. E talvez resida nesta última frase aquilo que descreve melhor a diferença entre o cinema dito comercial - que tenta consensos arriscando pouco - e o que tem o selo de autor. Numa entrevista ao c7nema, Molina disse que não entendia as criticas que alguma imprensa espanhola fazia ao apelidá-lo de comercial. A verdade é que olhando para trás e para este O Guardião Invisível verificamos que estamos perante trabalhos extremamente profissionais, bem executados na sua narrativa visual, mas quase isentos de marca pessoal, uma assinatura que o distinga das obras literárias que adapta.

Neste caso especifico, a própria novela (ímpar pelo tom mágico da zona) vem com moldes e esquematismos de procedimentos de outras do mesmo género, e isso sente-se no filme (que incide menos nos elementos místicos da região), numa sucessão de cenas e sequências que nos remetem sistematicamente para o dèjá vu.

E nem o carisma das personagens (e aqui incluímos o espaço físico e a cultura da região, que a par de Amaia funcionam como um protagonista) conseguem verdadeiramente dar um tom de peculiar e único a esta fita, algo que a torne capaz de se destacar no meio de uma imensidão de produções semelhantes. 


Jorge Pereira

 



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