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«Que Dios Nos Perdone» por Jorge Pereira

A imprevisibilidade é um dos maiores trunfos deste Que Dios Nos Perdone, um thriller policial para ver de dentes cerrados e com o queixo caído que coloca um par de policias no verão de 2011 a tentar capturar um assassino em série que escolhe idosas como alvo.

Mas para além de vermos uma caça ao assassino, o realizador e argumentista Rodrigo Sorogoyen faz um retrato atroz da época, não só de uma Espanha envolvida num turbilhão social, reflexo da crise económica, mas de todas as suas personagens, envoltas num manto negro de degradação moral sem cair nunca no miserabilismo.

Entenda-se que não existe uma única personagem masculina neste filme com que simpatizemos na sua plenitude, até porque a luta contra os demónios internos dos dois protagonistas, Alfaro (Roberto Álamo) e Velarde (Antonio de la Torre), colocaria-os como colegas ideais de Santos Trinidad, o policia sem lei de No habrá paz para los malvados (2011).

Alfaro tem o pavio-curto e tendência para a extrema violência. A sua relação com a família é praticamente inexistente, em particular com a filha, ignorando-se os dois mutuamente até bem perto do final filme. Já Velarde sofre diariamente com o facto de ser gago, mas é no campo relacional, com a empregada do seu prédio por quem está interessado, que revela também ele um lado impulsivo e frustrado. Na verdade, todos estes homens em lados opostos da lei têm claros traços de psicopatia.

 

Mas a cereja no topo do bolo é mesmo o argumento (coescrito com Isabel Peña) e a realização de Sorogoyen. Se no primeiro caso denota-se um tratamento extremamente cuidado que faz o filme passar do thriller ao drama e à comédia negra (e vice versa) em poucos segundos, sem nunca perder o seu rumo, interesse ou verosimilhança, no segundo ponto somos presenteados com um realismo gritante e frenético onde não faltam algumas sequências de pura magia, como uma cena em que câmara acompanha o nosso assassino por uma varanda fora. No todo, ainda se destaca o trabalho exemplar de Miguel Ángel Rebollo na direção artística e um Alejandro de Pablo na cinematografia a iluminar e a aplicar uma palete de cores que se afasta à partida da negritude da alma de toda a obra.

Uma nota final para a banda-sonora, que ajuda a transportar o espectador para cada um dos momentos do filme. Seja a musica corriqueira mas eficaz (típica dos thrillers) do francês Olivier Arson, seja o fado de Amália a vincar a tristeza e fatalismo intrínseco à personagem de Velarde.


Jorge Pereira 



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