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«Close-Knit» por André Gonçalves

A arte do tricô como mecanismo de escape para frustrações ou traições, para acalmar, para seguir em frente. Podia ser um bom resumo para "Close-Knit", vencedor do Teddy Award no Festival de Berlim deste ano. As agulhas e os novelos de lã, acabam assim por unir todos os personagens desta narrativa, por formar o que ainda não pôde ser materializado, ou até em jeito de luto pelo que foi desmaterializado.

Começamos a acompanhar a jovem Tomo de 11 anos, que tem que lidar com uma mãe alcoólica, que um dia decide simplesmente desaparecer da sua vida. Tomo decide então recorrer ao seu tio Maiko. Só que este tem um segredo por contar: vive atualmente com Rinko, uma transgénero (masculino para feminino) já com a operação de mudança de sexo materializada, mas ainda fazendo um luto muito particular até efetuar a mudança no registo civil. Toma Ikuta assume aqui muitíssimo bem esta responsabilidade de representar esta mulher finalmente com o género a fazer match à sua identidade, mesmo que o papel mais complicado aqui presente se venha a revelar até moralmente bastante simples...

A partir daqui, procede um tradicional filme de reacolhimento - passando por etapas em si previsíveis (frustração, reencontro, vontade de ficar), mas num tom contemplativo muito característico do cinema oriental, que apresenta aqui e ali soluções inventivas (como uma sequência a lembrar lições de comunicação de jardim-escola). A frustração familiar encontra também outras histórias paralelas, desde o colega de escola de Tomo a descobrir a sua própria orientação sexual fora da norma, à própria avó de Tomo que está num lar, lar onde trabalha Rinko por sinal.

Estas histórias têm as suas resoluções, mas a certo ponto, parece que a cineasta Naoko Ogigami tece demasiados novelos para o seu próprio bem - além de não escapar aqui e ali a maniqueísmos, esses sim, universais. Nada que prejudique muito a sensação de doçura final com que o filme nos deixa, no entanto. E a vontade de experimentar tricô para colmatar as nossas próprias frustrações.

 

André Gonçalves



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