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«The Void» por Hugo Gomes

A dupla Jeremy Gillespie e Steve Kostanski, que tem vingado no departamento de caracterização (com orgulho poderão exibir o Óscar ganho por Esquadrão Suicida), têm apostado a meio pés de lã na realização e ambos com resultados satisfatórios. Agora, reunidos novamente, avançam num autêntico bolo de camadas, um filme de cerco que depressa evolui para algo mais … demente.

Se Gillespie e Kostanski juntam esforços para nos trazer um arranque envolto em cultos satanistas e à limitação dos cercados num hospital no “meio do nada”, depressa recorre-se aos lugares-comuns do seu subgénero, às tendências da fórmula, e à honestidade das referências (assume-se os tributos e escapam, por vias de uma cínica absolvição, à acusações de cópia) -  mas onde os trilhos levavam em becos sem saída, The Void torna-se num marginal, um nostálgico desajeitado.

Os anos 80 (ou a memória destes) ditam os fluxos sanguíneos deste exemplar em prol de influências óbvias, de Clive Barker e o imaginário infernal do sofrimento via sacra, até Lovecraft e às seitas para além das dimensões reconhecíveis. Esta “descida ao submundo” torna-se num recreio para os devaneios da dupla, a criação das bestas por vias dos efeitos práticos, a obscuridade dos pesadelos trazidos à luz do dia através do “artesanato”. É cinema visual, a estética do horror, o grafismo e o onirismo que faltava numa panóplia rendida ao género -  os psicopatas estéreis aos fantasmas explicados “às criancinhas”.

The Void é de certa forma um “fóssil vivo”, uma peça antiquada, mas não obsoleta. É por essas e por outras que perdoarmos mais facilmente o fraco desenvolvimento das personagens, as interpretações fraudulentas e o enredo refém da linguagem puramente visual do que a credibilidade do argumento, até porque o terror não encontra sentido físico. Aliás, o terror é sobretudo abstrato.

Hugo Gomes



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