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«Berlin Syndrome» por André Gonçalves

Se na síndrome de Estocolmo, a vítima passa a empatizar ou a sentir amor pelo seu raptor, nesta síndrome de Berlim, o desejo vem primeiro, e a empatia posterior, essa, ficará ao critério de cada um. 

Clare (uma Teresa Palmer finalmente a merecer todas as atenções) é uma fotojornalista australiana que viaja assim para a capital alemã com o objetivo "de qualquer um de nós": colecionar experiências. Nota-se um certo impasse, e uma relação sui generis com a mãe, único elemento proeminente para o exterior, que lhe dá um anel, o qual coloca ao pescoço, anel esse que lhe poderá salvar a vida, caso entre em dificuldades financeiras. No meio de um dos seus passeios, conhece Andi (Max Riemelt, imediatamente reconhecível como um dos Sense8, jogando aqui com o mesmo sex appeal contra essa imagem recente), um alemão que dá aulas de inglês numa escola de desporto, e o que aparenta ser o início de uma história romântica escala rapidamente assim que Clare se dá conta que Andi a trancou em casa... 

Cate Shortland, apenas na sua terceira longa-metragem em 13 anos volta aqui a mostrar porque precisamos mais dela. E porque acreditamos agora que pode fazer qualquer género e ainda assim reconhecermos nela um programa temático incrivelmente consistente. 

Dois filmes de "passagem de idade" (o chamado coming of age), um passado na terra natal da realizadora (Somersault de 2004), o outro na Alemanha pós-Segunda Guerra (Lorede 2012), bastaram para a construção de uma identidade, que pode ser reconhecível também aqui nesta subversão de uma história de rapto para se adaptar à sua palete temática. É que Berlin Syndrome, tal como as anteriores obras, não deixa de ser um filme de "passagem de idade" em primeiro lugar bem antes de ser um filme interessado em resoluções físicas. Essas resoluções, aliás, servem precisamente sempre para sublinhar a complexidade emocional aqui presente neste "síndrome", onde de facto, como uma das maiores ambiguidades que a obra nos deixa é não saber o que é sentido ou fabricado com intenção de fuga. 

Shortland interessa-se claramente por essa não resolução obrigatória, por gerar um debate acima de tudo pelas ideias ambíguas que expressa, mais do que um ou outro pormenor de realização (exímia, de qualquer das maneiras, na sua relativa subtileza para encaixar ideologicamente a narrativa). E a sua execução vai portanto, de uma forma consistente, sendo mais cerebral que física, pela atenção ao pormenor, pela importância do contexto ao proferir uma mesma frase ("Ninguém te ouve"),  neste jogo pelo controlo da liberdade que culmina numa revenche final como mera consequência lógica da dinâmica de ação-reação expressa ao longo do filme. 

Se não é o K.O. imediato de LoreBerlin Syndrome é, mais uma vez, uma obra de uma arrumação artística de ideias que não encontra assim tantos paralelos no panorama atual. 

André Gonçalves



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