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«Atomic Blonde» (Agente Especial) por Hugo Gomes

Vamos fingir por momentos que Charlize Theron não é a protagonista de Agente Especial... sim, vamos supor que ela está ausente do projeto. O que nos resta afinal? Um thriller de ação pingarelho completamente estilizado, cujo estilo, quer estético, quer técnico, engole por completo o que de bom este filme poderia culminar? Sim, exatamente isso!

Atomic Blonde desloca-nos para os temores da Guerra Fria, mais precisamente nos dias premonitórios da Queda do Muro de Berlim, tudo embrulhado no típico filme de espionagem mais devedor aos tempos musicalizados de hoje do que ao apogeu deste mesmo subgénero na década de 70. Como é de esperar, a premissa envolve-nos um macguffin, um dispositivo que levará a nossa protagonista e as restantes personagens numa extensa corrida contra o tempo, esse que se faz não da maneira cronometrada, mas na reconstituição de época, com a História a ser escrita em paralelo (das promessas da queda do muro até à realização do histórico ato).

Contudo, o objetivo desta intriga, o motivo de desespero destas personagens, não fazem efetivamente o sangue correr no espectador, a responsabilidade encontra-se de facto na saturação do subgénero, na vulgaridade com que o macguffin se converte nos constantes plot twists, ocorridos pontualmente e sem surpresa alguma. Mas todas estas desculpas têm um propósito (calma, ainda não é aqui que entra Charlize). A desculpa é um show off técnico e estético por parte de David Leitch (um dos realizadores de John Wick e futura sequela Deadpool), uma bandeja requintada de sequências de ação desafiadas por uma montagem poupada em cortes e planificações desnecessárias, aliás são os constantes travellings, esses planos sequências quase espaciais que ditam a natureza desta “loira atómica”.

Que em união com a violência gráfica, os stunts sem falhas e devidamente treinados, a decadência de uma Berlim em ebulição e por fim … entramos então naquele ponto inicial … a nossa atriz com esforço e dedicação neste papel fisicamente árduo. Theron dispensa os duplos, é autodidata e essas qualidades refletem uma cumplicidade com o olhar clinico de Leitch, esse dinamismo vibrante entre a técnica pensada em prol da ação e não o oposto.

Curiosamente, existem vestígios de um subenredo existencialista que parece ocasionalmente demarcar-se da proposta de ação. Quem é esta Atomic Blonde? O que procura ela numa cidade dividida sob a agenda política? “Em Berlim, todos procuram algo”, afirma uma das personagens que atravessa no seu caminho, uma estrada que a guia para uma outra sequência. Enquanto combate capangas no Cinema Kino, é projetado Stalker, de Andrei Tarkovsky, a ficção científica filosófica onde um grupo de personagens tentam alcançar a “Zona”, um local misterioso, perigoso e proíbido que realiza os respetivos desejos íntimos de quem o atravessa. Nessa jornada cinematográfica, estas personagens defrontam as suas dúvidas e medos antes de se instalarem na “Zona”, que resulta igualmente no espaço de uma Humanidade cada vez mais guiada pelo seu “umbiguismo”. Cena seguinte temos: “Everything you want is on the other side of fear”, lê-se num dos letreiros visíveis de um clube noturno de Berlim, essa cidade conflituosa em prol dos seus mais íntimos desejos, um desejo coletivo que não reflete a dúvida indivídual da personagem de Theron.

Infelizmente, ficou a sugestão, Atomic Blonde perde esse rasto no trilho, e o que sobra é só mesmo uma dedicada atriz de corpo-e-alma. E sim, é ao adicionarmos Charlize Theron a esta equação que o resultado se torna satisfatório. A atriz torna-se a rainha da ação, a estrela deste palco em ruínas e o resto… bem, o resto, a intriga, os secundários e a direção, estão somente elementos subjugados a uma realeza apenas.  

Hugo Gomes

 



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