Menu
RSS


«The Eagle Huntress» (A Caçadora e a Águia) por Duarte Mata

Embora incorretamente, Nanuk, o Esquimó (1922) é considerado o primeiro documentário no formato longa-metragem da história do cinema. Se a obra de Robert J. Flaherty foi criticada (como ainda é) pela veracidade de algumas das suas cenas, hoje o seu estatuto de clássico enquanto objeto cinematográfico e, acima de tudo, peça documental, é inegável. E não foi um caso isolado. Dificilmente haverá um documentário que corresponda a “100% realidade”, devido a uma série de variáveis que se veem condicionadas na elaboração e estruturação de um filme: o que mostrar (igualmente relevante, o que não mostrar) e como mostrar (o olhar de um cineasta é algo, por si, subjetivo e, portanto, forçosamente distanciado, em menor ou maior grau, da objetividade pretendida), a fim de ser facilitada a progressão narrativa e subsequente perceção da mesma pelo espetador. E não há nada de eticamente incorreto nesta busca da verdade pelo recurso ao artificialismo porque, simplesmente, muitas das escolhas resultam de um processo pouco racionalizado, para não dizer inconsciente. Dito isto, boa parte das críticas negativas que se têm feito a A Caçadora e a Águia devido à sua autenticidade no que toca à protagonista ser ou não a primeira mulher da região a treinar este tipo de ave, parecem-nos, francamente, providas de uma enorme ingenuidade e o menos relevante para o caso.

Neste filme, seguimos a jornada de uma rapariga mongol adolescente, cuja maior ambição é seguir os passos da sua família na caça com águias, tradição já com idade superior a um milénio. No entanto, terá que enfrentar a oposição social presente nas gerações mais anciãs que se justificam com os argumentos misóginos e reacionários habituais (“o sexo feminino é mais frágil, o seu lugar é em casa a preparar chá", como é dito), mesmo que ela tenha lutado contra todos os rapazes da turma e ganho sempre.

Falámos de Nanuk e apesar da distância geográfica (ele habitava na parte norte do Canadá) e temporal que está entre os dois retratos, é impossível o mais recente não remeter para o seu antecessor, nomeadamente na beleza e sensação de isolamento que estão naquelas paisagens álgidas ou na forma como a caça é encarada como uma atividade vital e essencial de honra e respeito a serem conquistados. Mas isto é o século XXI e onde antes havia tripés, hoje há drones a fazerem o ponto de vista altaneiro de avejões e GoPros atadas ao dorso dos mesmos. A melhor cena do filme é, curiosamente, aquela em que pai e filha vão capturar a águia a uma encosta rochosa. A forma como está encenada e editada tem algo de tão primordial na escolha dos planos (gerais do céu ou médios da rapariga a tentar cativá-la, como visto por alguém que estivesse à beira da encosta) como de moderno (grandes planos da ave conseguidos à custa de uma câmara ao pescoço da rapariga). É uma exemplar cena de como o clássico pode fundir-se ao moderno sem uma das partes ver-se destacada face à outra, com ambas coabitando pacificamente entre si.

Peca, no entanto, na necessidade do realizador Otto Bell em transformar esta obra em algo mais moralizador, tanto em termos estéticos - sequências filmadas em contraluz (é o efeito Malick a sentir-se) ou em ralentis de voos e cavalgadas, derivativos dos documentários do National Geographic - como em termos narrativos (a moldagem desta história oriental como uma mensagem pró-feminista “acredita e tu consegues” para as civilizações ocidentais). Resulta assim um filme que sabe olhar para a natureza, mas sem evitar um filtro pueril impregnado pela marca d’água sentimental da Disney.

Duarte Mata



Deixe um comentário

voltar ao topo

Atenção! Este website usa Cookies.

Ao navegar no website estará a consentir a sua utilização. Saber mais

Entendi

Os Cookies

Utilizamos cookies para armazenar informação, tais como as suas preferências pessoais quando visitam o nosso website. Os cookies são pequenos ficheiros de texto que um site, quando visitado, coloca no computador do utilizador ou no seu dispositivo móvel, através do navegador de internet (browser). 

Você tem o poder de desligar os seus cookies, nas configurações do seu browser, ou efetuando alterações nas ferramentas de programas AntiVirus. No entanto, isso poderá alterar a forma como interage com o nosso website, ou outros websites.

 Tipo de cookies que poderás encontrar no c7nema?

Cookies estritamente necessários : Permitem que navegue no website e utilize as suas aplicações, bem como aceder a eventuais áreas seguras do website. Sem estes cookies, alguns serviços que pretende podem não ser prestados.

Cookies analíticos (exemplo: contagem de visitantes e que páginas preferem): São utilizados anonimamente para efeitos de criação e análise de estatísticas, no sentido de melhorar o funcionamento do website.

Cookies funcionais

Guardam as preferências do utilizador relativamente à utilização do site, de forma que não seja necessário voltar a configurar o website cada vez que o visita.

Cookies de terceiros

Medem o sucesso de aplicações e a eficácia da publicidade de terceiros. Podem também ser utilizados no sentido de personalizar widgets com dados do utilizador.

Cookies de publicidade

Direcionam a publicidade em função dos interesses de cada utilizador. Limitam a quantidade de vezes que vê o anúncio, ajudando a medir a eficácia da publicidade e o sucesso da organização do website.

Para mais detalhes visite http://www.allaboutcookies.org/

Secções

Quem Somos

Segue-nos

Contactos