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«You Were Never Really Here» por Hugo Gomes

Para entendermos a escocesa Lynn Ramsay teríamos que navegar pela sua anterior carreira e percebermos o que a move profundamente – o trauma. Contudo, este You Were Never Really Here é um exemplo da dissipação miraculosa do efeito de trauma; o que restou foram as imagens, anexadas a um vazio alarmante, onde a violência passa daquele território inteiramente masculino e transforma-se num universo recontado sob o sujeito de ‘ela’.

Digamos que este misto de Taxi Driver com Drive (um cocktail de Scorsese e Refn - este último, de certa forma, a invocar as influências do primeiro), é um exercício de agressividade que se exerce de fora para dentro, ao invés do dentro para fora. As imagens perdem o seu sentido mais intrínseco, assumindo-se como protótipos de um engenho visual. Triste será dizer, que Ramsay falha o alvo numa intensa deambulação narrativa. Quanto ao enredo, as pistas são nos deixadas como migalhas de pão se tratasse, encontramos o rasto por momentos, mas este tende desaparecer face à gula dos “pássaros”. Pássaros, esses, os artifícios animalescos que nos conduzem a uma indiferença enorme entre as personagens, e a realizadora perante o material adaptado (visto tratar-se numa pequena história de Jonathan Ames), incutindo uma estética sem propósitos, quer criativos, quer induzidos narrativamente.

Joaquin Phoenix ainda em modo I’m Still Here neste You Were Never Really Here, uma ligação artística do seu modus operandi de interpretação, um homem pronto a emanar a sua força para transportar um filme à pendura como um Atlas. Mas os seus esforços são em vão. Ramsay polvilha o filme com alguns truques visíveis de inércia, entre os quais as rápidas transposições, de forma a simular um sistema de videovigilância, atenuando o explícito da violência embarcada, ou a rádio que nunca se cala, dando-nos um filme sonoro dentro deste filme, estreitamente visual. Infelizmente os truques não resgatam este “freakshow” da penumbra do seu ser.

Eis um fracasso completo, Ramsay com pretensões de invocar o seu ‘eu’ violento, dando-nos preocupações quanto ao seu estado. Depois disto, haja alguém que critique o Refn.

 

Hugo Gomes



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