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«The Day After» por Hugo Gomes

"O Woody Allen coreano"! De vez em quando é assim referido Hong Sang-Soo, um dos mais prolíferos cineastas do nosso tempo, que este ano [2017] leva com um recorde de três filmes concebidos, entre eles, The Day After, o seu regresso à imagem monocromática desde The Day He Arrives (2011), mais uma confirmação das suas descendências rohmerianas.

Trata-se de uma história de arrependimentos, um colapso entre realidades diferentes, que nos remetem à fragilidade dessas mesmas. E à sua maneira um trabalho metafísico, uma ficção científica que tem como vetor a criatividade narrativa do coreano, exercendo assim um filme pessoal e requintado. A história de uma editora de livros e dos seus affairs, é trabalhada como um comédia de maus-entendidos, ao bom jeito francês, conservando a personalidade de Sang-Soo. Porém, essa personalidade é imutável, e após as melhorias narrativas e técnicas em Sítio Certo, História Errada, visto como o seu melhor trabalho desde então, o coreano conforma-se novamente com um estilo desinteressado e preguiçoso.

Onde The Day After vinga é no gosto insatisfeito do realizador em reinventar a narrativa, deformando o linear e, neste caso, incentivar um verdadeiro caos temporal. As personagens também questionam essa realidade, e questionam ainda mais a resposta de Kwon Hae-hyo, “a realidade existe porque é sentida”. Hong Sang-Soo sente o filme que está a fazer, é-lhe querido, e como tal grande parte da sua filmografia, invoca a mulher como um súbito interesse na libertação (novamente a actriz Kim Min-hee). Mas o espectador, será que sente esta jornada? Ou apenas se rirá das running gags que o nosso coreano parece cometer de forma deliciosa?

A verdade é que Hong Sang-Soo, por mais interessado que esteja na criação e recriação narrativa, é um conformista a um estilo sem estilo, o que facilita a sua prolificidade, mas nunca a sua “genialidade”. Fiquemos então com o plano em que Kim Min-hee assiste de tal forma reconfortante a neve que porventura começa a cair. Um plano que nos mostra o quão bom seria se Hong Sang-Soo tivesse esse amor à técnica. Por isso, esta não existe. Porque ele, simplesmente, não sente.

Hugo Gomes



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