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«Loveless» por Hugo Gomes

Os planos fixos são a praia de Andrey Zvyagintsev, aquele inicio que de certa forma cose com a essência do filme, o silêncio que domina e deixa ser dominado por um repentino bater de portas, pelos passos de crianças e assim sucessivamente a dar encontro como uma comunidade barulhenta, mas igualmente silenciada. Este não é o mero filme incutido entre silêncios, é um filme que olha para o silêncio e o interroga, mas faz isso evitando todo o "panfletarismo" desnecessário, até porque as imagens valem mil palavras e a narrativa visual vale muito mais.

O nosso russo sabe muito bem que para entregar a sua mensagem precisa ter a necessária cinematografia, e assim, de forma discreta, mas eficaz, atribui a este Loveless, o habitual banho técnico que nos faz querer olhar para mais. Nenhum plano é desperdiçado. Existe aqui a noção de que a linguagem cinematográfica é transversal e sobretudo universal. Cada plano tem um objetivo e Zvyaginstsev está preparado para incentivar esse dito ativismo que parece nascer dentro do filme. Nelyuboy (Loveless) é uma obra que nos remete a um espelho, o mesmo que reflete os nossos medos, assim como as nossas perdições.

E que perdições são essas? Pergunta o leitor e muito bem. É a tecnologia, a dependência, uma agulha num palheiro que é a nossa individualidade, que gera uma ausência enorme de afeto. Toda esta mensagem, trivial, mas nunca ignorada tem como incentivo uma história de desaparecimento de uma criança, um casal à beira do divorcio e um rebento que sofre com as consequências dessa mesma separação. Enfim, os seus progenitores querem uma paz, algo que nunca obtivera, que culpabilizam o seu filho de ser causa desta distância individual. Mas é com a misteriosa falta, uma disposição tão aventureira à la Antonioni, que esta procura insucessível pela humanidade numa sociedade desligada é suscitada.

Um comboio onde ninguém cruza o olhar, o jogo do solitário num dos computadores do escritório de forma a não existir contacto entre empregadores, o jantar sob impasses devido a selfies e fotos partilhadas, a rádio que anuncia o fim do mundo do mesmo jeito que lança o novo hit musical, “normalidades” injetadas neste nosso quotidiano que nos levarão à mais infeliz das conclusões; esse desligar, esta falta de afeto, humanidade, irá tornar-nos frios, enquanto ignoramos os cartazes de auxilio nas paragens. Sim, Loveless é uma denúncia à falta de amor conduzido de forma apaixonada. Os atores apercebem-se do termo e o mimetizar através de desempenhos emotivos, mas de igual contenção, aliás, não vamos distrair o espectador da mensagem. Não vamos reduzir ao fogo de artificio.

Além disso, Zvyagintsev parece integrar-se no seu mundo cinematográfico, trazendo à luz o seu elogiado Leviatã, a demolição de um a dialogar com a reconstrução de outro, a musicalidade a servir de separador para os atos que nos esperam e, por fim, a politica nunca é deixada de lado, mesmo que o subversivo vença neste caso. Enfim, temos um realizador capaz e astuto, dando uma mensagem simples, sabida, numa bandeja complexa, mas não implícita a complicações do foro pretensioso.

É o tipo de ativismo que precisamos, aquele silêncio que soa mais barulhento que qualquer euforia. Dose forte.

Hugo Gomes



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