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«Victoria» (Na Cama com Victoria) por Duarte Mata

Parece que os nossos amigos franceses descobriram recentemente a comédia, já que os vemos a gritar “obra-prima!" ao mínimo filme do género, num registo inclinado para o dito de auteur... Na Cama com Victória (tradução mais sensacionalista que honesta do Victoria original) vem coberto por uma áurea de superabundância de referências. É ouvi-los a falar de Woody Allen, Billy Wilder ou Blake Edwards (vá lá, não se lembraram do Jerry Lewis), como se fosse a chegada miraculosa do cinema americano de outrora às terras francófonas do presente, quase como se menosprezassem o forte legado de que também são portadores

A intriga gira em torno de uma advogada que se vê na defesa de um caso de violação e cuja única testemunha é um dálmata. Simultaneamente, a protagonista inicia uma relação amorosa com um estagiário adolescente. A ideia parece vinda de um surrealismo Felliniano e com uma dose apropriada para o innuendo, mas não é isso que interessa à realizadora Justine Triet, não havendo nem as neuroses pessimistas de Allen, nem a fisicalidade burlesca de Edwards. Há, isso sim, aquela ternura e empatia pela imperfeição emocional das personagens centrais de, digamos, um James L. Brooks, que também trocava “o riso” em momentos-chave para deixar os seus filmes respirar nas relações afetivas que se formavam a custo entre elas, numa sobriedade e maturidade raras dentro do género da comédia romântica.

A cineasta foca-se então na psicologia da personagem epónima (interpretada impecavelmente por Virginie Efira) com necessidade de se refugiar no sexo devido à pressão profissional que o ex-marido lhe causa pela difamação que provoca à sua carreira. E fá-lo através de uma mise-en-scène mais trabalhada do que seria de esperar num filme “popular” (ótimos planos de conjunto com uma estimável noção de simetria na sua composição), associado a um ritmo que nunca tropeça nem trai o filme.

Mas, no final, sentimos que apesar de bem executado, trata-se de um projeto superficial, com pouco ou nada a acrescentar sobre obras semelhantes do mesmo tema. Culpamos talvez o argumento por nem se prestar o suficiente à comédia nem conseguir explorar as relações humanas entre o par central tão a fundo como poderia. E é isso que não permite as comparações com alguns dos cineastas anteriores que por vezes conseguiam ter ambas estas caraterísticas impecavelmente explicitadas num mesmo filme. Chegamos assim à conclusão que, mesmo que não seja mau (não é), simpatiza-se mais do que se gosta verdadeiramente.

O melhor: A mise-en-scène e a interpretação de Efira

O pior: A superficialidade do argumento.

Duarte Mata



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