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«Valley of Love» (Vale do Amor) por Duarte Mata

Huppert, a maior atriz francesa, e Depardieu, o maior ator russo, reencontram-se pela primeira vez após o Loulou (1980) de Pialat. Foram 35 anos que passaram e este rendez-vous surge-nos como uma miragem (não podia ser de outra forma), naquele travelling que choca com Depardieu a caminhar de longe e que acaba com o ator a dizer “Não suporto este calor”. O motivo? Uma jornada pelo Vale da Morte, na esperança de terem uma reconciliação impossível com o espírito do filho que se suicidou e que lhes mandou cartas depois de morto. Bem-vindos ao Vale do Amor de Guillaume Nicloux.
 
Impossível falar deste filme sem falar dos seus atores, mestres na sua arte. Porque eles são o filme. E o filme é eles. Se é costume dizer-se que toda a ficção acaba por ser um documentário sobre os seus atores, nunca foi tão verdade como neste caso. E sorri permanentemente para as suas carreiras, naquelas invocações para o passado de ambos e aclamação no presente. Huppert, ao longo dos anos, teve mais sorte, estando agora no apogeu da mesma. Mas ele (se excluirmos, talvez, o Bem-vindo a Nova Iorque de Ferrara) quantas décadas teve a atravessar-lhe desde o último grande filme em que participou? Terá sido o corpo paquidérmico e o aspeto vil, quase de um monstro de Frankenstein, que o afastou da ribalta? E culpar-se-á por isso?
 
Daí que faça todo o sentido aquele diálogo, onde ela diz “Estás muito bem”, ao que ele replica com “Engordei. Como posso estar bem assim?”. É esse “assim” que magoa ouvir e que poderia bem ser copiado de uma conversa com a Huppert e o Depardieu na vida real. Mais tarde saberemos que são, de facto, atores de profissão e que a metamorfose da ficção num documentário sobre os mesmos nunca esteve tão certa. Ele dirá “Que raio fazemos aqui? Isto é uma loucura”. Porque poucas vezes vimos filmes assim, tão orgânicos e cristalizados pela memória, pela idade, pelo amor por uma arte incrustado no corpo de pessoas reais, com histórias reais (Depardieu, recorde-se, teve um filho que morreu e sabe o que é a dor de um luto) e que aguardam que alguém as use como utensílios para um filme que já parecia finalizado à partida. Ou então impossível de existir.
 
 
Daí que seja imperativo escutar cada diálogo e não perder cada frase e a expressão com que é dita. Como os momentos em que um ironiza as manias e tiques do outro, ou ainda, como Huppert finge o desinteresse quando Depardieu fala da vez em que fizeram amor num elevador, sem esta conseguir ocultar um sorriso de afeição genuína, quase como se fosse uma comédia screwball. Seja Vale do Amor um Inferno ou um Purgatório (a reação tem sido polarizada), só temos a certeza de que não é deste mundo. Sem eles, não faria sentido o filme existir. Com eles, torna-se qualquer coisa como uma das obras mais bonitas e singulares que veremos este ano. 
 
O melhor: Huppert-Depardieu.
O pior: O facto do filme querer viver essencialmente dos seus atores e dos respetivos passados, pode colocar em causa o seu mérito cinematográfico.
 
Duarta Mata
 


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