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«A Floresta das Almas Perdidas» por Duarte Mata

Não será de um completo reacionarismo ao afirmarmos que boa parte do cinema de terror foi-se tornando, ao longo dos anos, demasiado presa e segura aos estereótipos e fórmulas a que muitas vezes se restringe. José Pedro Lopes não os evita, mas também não se limita a segui-los, tomando a jogada astuciosa em invertê-los tenuemente nesta sua primeira longa-metragem, A Floresta das Almas Perdidas.

E começa a evitar a previsibilidade logo no princípio, numa primeira parte quase transfigurada em drama sobre o medo e a culpa, focando-se num pai de família em busca incessante pelo termo da sua vida (Jorge Mota) à medida que percorre os fantasmas de uma floresta reminiscente de Aokigahara. É lá que conhece Carolina (Daniela Love, num desempenho ilusório de adolescente vitimizada), debatendo com ela a validade do suicídio que ambos cobiçam. Ela, ávida estudiosa do tema, incentiva-o com citações de Nietzsche e Goethe, até ao twist inesperado, revelador da sua faceta facínora.

Como Takashi Miike, Pedro Lopes faz uma mistura de géneros nas duas metades que, quando isoladas uma da outra, parecem impossíveis de alguma vez coabitarem entre si. No entanto, é devido a este "casamento forçado" que se forma um todo capaz de provocar uma sensação incomodamente apelativa no espectador. Mais apelativa ainda (e é aí que o filme ganha) é a estética da obra, na forma como a impunidade das árvores daquela floresta nos surgem num preto-e-branco vistoso e que acaba por contrastar vivamente com a debilidade da assassina, assim como a pequeneza da casa que esta irá atormentar mais tarde, transformando o drama em home invasion. Ou ainda, a leveza na composição da imagem nas cenas à beira de um lago, registadas em planos gerais e de conjunto que parecem ser moldados por chroma key (um lado falsamente artificioso que apreciamos).

Falámos há pouco na inversão de regras do cinema de terror e temos razões para isso. A personagem de Carolina não é a típica serial killer de slasher films. Mais do que a sua postura pedante, não é impulsionada ao ato de matar por qualquer trauma de infância ou vingança pessoal. Antes por ver em tudo aquilo um jogo lúdico, onde as normas, de maior ou menor moralidade não lhe retiram liberdade suficiente para participar no mesmo. Ela é a materialização da faceta reprimida da rapariga virginal e insegura que irá conhecer na segunda parte (Mafalda Banquart). Um ligeiro confronto simbólico entre as duas personalidades adolescentes quotidianas, a libertina e a puritana, a aparência e a realidade, a faca e a carne imaculada.

Peca, no entanto, pelo uso de alguns elementos como a banda sonora não-diegética, demasiado chamativa quando presente, pondo em risco a capacidade imersiva da experiência. Para além disto, o genérico inicial é extenso e incoerente com os 7 minutos cuidadosamente contemplativos que o antecedem. No entanto, não são estas ingenuidades que nos impedem de apreciar o válido esforço do cineasta em fazer algo de diferente no género, dentro e fora do panorama do cinema português.

O melhor: A direção de fotografia de Francisco Lobo, a mistura inesperada de géneros e a inversão das regras do terror.
O pior: . A imersividade da experiência ser posta em risco em prol da prevalência da banda sonora não-diegética. O genérico de abertura.


Duarte Mata



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