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«Fifty Shades Darker» (Cinquenta Sombras mais Negras) por Hugo Gomes

No preciso momento em que Marlon Brando pediu a manteiga a Maria Schneider, do cinema erótico pouco faltava para transgredir. A última "pedra" foi com Gaspar Noé e o seu Love, mas isso é outra história. Quanto a Fifty Shades Darker (Cinquenta Sombras mais Negras) ... o que está em causa é um produto vindo da mais defeituosa linha de montagem, existindo mais interesse em apelar aos fãs do livro, reduzindo-se a uma adaptação de adereços, do que propriamente apostar no campo do cinema erótico.

Pois sim, de erotismo este episódio nada tem, e muito menos o teor explicito, apenas dissecado no product placement de qualquer sex shop. Esta sequela, agora sob o cargo de um homem e com maior intromissão da autora E.L. James no guião, não dá dignidade a Anastasia Steel, ao contrário do filme anterior, em que a realizadora Sam Taylor-Johnson tentava perante tão afamado material "injetar" a personagem num "loop" que percorria os mesmos traços de Nove Semanas e Meia. É tudo igualmente púdico, limpo e absolutamente vendido à "pop culture" da MTV (a banda sonora é um autêntico balde de gelo perante qualquer atmosfera sensual).

Os atores nada se esforçam e ambos revelam se limitadíssimos em "rasgar" as suas personagens de papelão. A entrada de Kim Basinger, a única referência pura ao filme de Adrian Lyne, é uma piada de extremo mau gosto, até porque no que diz respeito a personagens secundárias, Fifty Shades Darker nada tem de submissão (o que interessa são os protagonistas, os restantes são adereços). Assim continuamos a criar fenómenos sem razão, a sermos escravos de um marketing bondage, e a ser histéricos por um material "kinky" para maiores de 16 anos.

Depois de Paul Verhoeven ter apresentado em Elle que é possível representar mulheres numa jornada em busca das suas fantasias sexuais, é quase uma censura moral sermos presenteados com um filme sobre sexo tão inofensivo que até o próprio tempo de antena lascivo é um mero embaraço narrativo. Na televisão conseguimos ver bem mais.

O melhor - não consigo encontrar nada para esta secção
O pior - desde a banda sonora de diminuir a libido, às prestações, ao argumento, a narrativa e a timidez sexual. Nada de elegante.

Hugo Gomes



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