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«The Eyes of My Mother» (Os Olhos da Minha Mãe) por Duarte Mata

Surpreendente este primeiro filme de Nicolas Pesce que aqui mostra uma cinefilia estimável (as entrevistas que tem vindo a dar confirmam-no ou então é olhar para o grande plano do olho da vaca a ser cortado, tal qual como Buñuel havia feito na sua curta inesquecível, Um Cão Andaluz) e uma noção rara de como contar uma história através da luz e do corpo dos atores. Falamos, evidentemente, de um preto-e-branco reminiscente de A Sombra do Caçador, mas também dos temas que este aborda e que o cinema, mais cedo ou mais tarde, acaba por voltar: a infância e a sua atração pelo mal, exibidas como um enorme pesadelo expressionista.

Certamente que o filme terá mais atenção pelo protagonismo da atriz portuguesa, Kika Magalhães, numa interpretação magnífica onde, pelo olhar e postura física, consegue fazer da sua representação algo singular, um daqueles desempenhos que acarreta, nos seus ombros, o filme inteiro e do qual este depende ser o tudo ou nada. É também graças a ela que o filme contém uma certa aura lusitana. Não só através da banda sonora com Amália Rodrigues ou do próprio idioma, mas também no saudosismo a um tempo que não volta mais.

A personagem de Francisca é inocente na sua culpa, ou não é por acaso que Pesce insiste em dedicar um ato inteiro à infância da mesma. Dá-lhe a motivação, mas ensina-nos a compadecer desta criatura anátema, ostracizada e incompreendida, alguém que age, não por mal, mas, estranhamente, por amor. O amor que não tem, que lhe foi negado aquando o bárbaro assassínio da sua mãe e a consequente relação fria com o pai. A partir daí, toda a forma como vai retirando os olhos às suas vítimas não é mais que a continuação do instante em que deixou de estar feliz com a progenitora. Nada mais que uma reivindicação falhada da juventude roubada e que levará a um desfecho cru e descoroçoante.

É por isso que, apesar de pecar, por vezes, numa certa ingenuidade de primeiro filme, onde alguns planos (mais nascidos da vontade de experimentar que outra coisa) parecem desfasados da restante obra (a câmara a ser arrastada por um lençol, por exemplo), as suas qualidades levam anos de experiência e de maturidade cinematográfica a adquirir. Que Pesce o tenha conseguido à primeira, é, no mínimo, louvável e totalmente digno de atenção.

O melhor: A expressividade visual e o desempenho de Kika Magalhães.

O pior: Alguma ingenuidade em certos planos.

Duarte Mata



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