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«The Great Wall» (A Grande Muralha) por Hugo Gomes

Existe uma ligação direta que une este megalómano blockbuster chinês com o mais recente filme de Jia Zhang-ke, Mountains May Depart (Se As Montanhas Afastam). É tudo uma questão de identidade, e a China tem sido uma das civilizações mais fustigadas pela injeção ocidental e globalizada dos tempos que decorrem. No referido filme de Zhang-ke, num futuro próximo, existirão escolas para reabilitação da cultura chinesa, onde chineses estudam para ser chineses, mantendo viva a sua herança cultural.

A Grande Muralha, a produção mais cara até à data em território chinês, é um exemplo de como o cinema, para chegar a um vasto leque de audiências, abdica da sua essência hereditária em prol de um espectáculo contagiado pelo modus operandi dos grandes estúdios norte-americanos. O mais frustrante desta experiência é o nome de Zhang Yimou surgir nos créditos. O realizador de épicos chineses como Herói e O Segredo dos Punhais Voadores, revela a sua fascinação pelo luxuoso e pelo pomposo, mas "vende a sua alma ao Diabo". É um realizador convertido ao anonimato, tecendo uma câmara imparável que nunca em momento algum deseja "descansar" (aprendendo os tiques de um Michael Bay, por exemplo) e pela artificialidade com que esta narrativa tende em recriar.

No geral, esquecendo os nomes, A Grande Muralha é de uma ciência básica no storytelling, requisitando estrelas internacionais para induzir conteúdo mitológico a audiências habituadas à linguagem do cinema blockbuster. Assim, como mandam esses contratos "faustianos", esta produção cede-se aos lugares-comuns, ao humor ligeiro de puro comic relief (encarregue por Pedro Pascal), à submissão dos efeitos visuais e a um argumento de uma imaginação pobre e preguiçosa.

Em terras do wuxia faz-se "coisas" destas! Resultaria, se não fosse tão desprovido do efeito série B. No fim de contas, Jia Zhang-ke é que tinha razão. A identidade é valiosa, mas igualmente frágil.

O melhor - Pedro Pascal

O pior - um entretenimento sem personalidade, completamente seduzido pelos standards de produção ocidental.


Hugo Gomes 



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