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«John Wick: Chapter 2» (John Wick 2) por Hugo Gomes

Depois da velha cantiga do "homem de barba rija" que o antecessor possuía (aquela psicologia barata de que um homem não pode nutrir sentimentos por um animal, condenou a simplicidade da ação em um statement a uma fantasia de masculinidade), esta sequela avança num tom despreocupado, mas igualmente estilizado e quase ritualista perante uma subversiva distopia.

Não há que enganar, este é o produto de ação do cinema recente que mais próximo se encontra do fenómeno Matrix (e não é só pelo ajuntamento de Keanu Reeves e Laurence Fishburne que replicam aqui diálogos de "pílulas", neste caso concreto, decisões). É a manipulação da realidade, traiçoeira à nossa percepção que funcionou como o melhor elemento do primeiro filme, e aqui o trunfo desta sequela de agenda. O submundo dos hitmans, altamente organizados por oligarquias e regras sob regras, contratos e até poder monetário próprio, a relevância desta camada no quotidiano que julgávamos ser … simplesmente o "nosso" quotidiano, refletem, como é figurado numa das sua sequências de acão, a alma deste projecto.

A Reeves é devolvida a sua aura de herói de ação, um protótipo evolutivo da imagem estendida dos anos 90 até à transição do novo século. Este John Wick é o novo Neo, o herói de ação dedicado a uma geração habitualmente pobre nesse registo. Esta "sequelite" serve como um upgrade elegante ao primeiro tiro de 2014, que igualmente não foge das evidentes cuspidelas dramaticamente "enfáticas" que tentam atribuir um teor de tragédia a este assassino em saldos e em constante "vicio de vingança".

Como continuação, largando as amarras introdutórias, Chapter 2 opera, sem intervalos, num ensaio de pancada que salienta, sobretudo, as mestrias da edição e da coordenação entre cenas. Chad Stahelski, o realizador que ficou, declara amor a Matrix e ao legado deixado por esse frenesim cyberpunk dos irmãos Wachowski no cinema de género (com isto, sem nunca requisitar o "bullet time" e outros maneirismos estilísticos). O tributo é feito na recriação da sua filosofia de pacotilha, envolvida numa ode à violência hiperativa e a adrenalina artificialmente induzida, assim como referências visuais (Reeves e McShane dialogado na praça, tem tanto de Neo e a Oráculo).

Contudo, as menções não terminam aqui. Chapter 2 reserva-nos uma homenagem direta a um dos mais letais e tenebrosos assassinos do Cinema, Django, com a entrada de Franco Nero em cena. Vendo bem as contas, porque não encarar esta nova personagem de Keanu Reeves como um "prodígio" sanguíneo da célebre encarnação de Franco Nero?  

O melhor - tenta desviar-se da psicologia de "machão" do primeiro filme 
O pior - o ínicio rebuscado e repetitivo

Hugo Gomes



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