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«Le Jeune Karl Marx» (O Jovem Karl Marx) por Paulo Portugal

O que nos trará de novo um filme sobre Karl Marx?! O que o cineasta do Haiti, Raoul Peck, pretende explicar (ou relembrar) é de onde surgiram os fundamentos do manifesto do Partido Comunista neste muito bem conseguido The Young Karl Marx. Mas Peck é também o cineasta que pode muito bem ganhar o Óscar por I Am Not Your Negro, o documental em que se revivem os escritos e as memórias de James Baldwin sobre os atentados aos direitos civis nos EUA. Afinal de contas, dois filmes que marcam estes tempos, ou que chamam a atenção para os paradoxos do capitalismo e a insolência da raça. Estes são os dois grandes temas que me dominam, esclareceu na nossa entrevista o realizador ativista. Importantes eles são. Importa saber é se vão farão a diferença.
 
Estamos em 1844, numa altura em que o jovem Karl Marx (na composição muito consistente de August Diehl), ainda com 26 anos, conhece Friedrich Engls (Stefan Konarske), filho de um burguês dono da maquinofactura que lhe permitirá verificar a gritante diferença de classes criada pela Revolução Industrial. É claro que este filme não evita o seu lado de Ciência Política e um inevitável name droping da filosofia alemã, de Feuerbach e Hegel, bem como os idealistas, como Proudhon, de onde parte a inspiração para enfrentar esse capitalismo desumanizado. A eficácia de Peck consiste em passar a mensagem sem nos aborrecer com conversas inúteis. Isto graças ao guião bem urdido escrito de parceria entre Pack e Pascal Bonitzer.
 
Apesar desta ser a juventude de Marx – sim, ainda antes do famoso O Capital, que só viria a ser publicado vinte anos depois – é também o início da parceria com Engels e a definição da luta de classes. É esse período fértil influenciado pelo estudo de Engels sobre as condições dos trabalhadores ingleses, mas também onde se começam a perceber as diferenças entre os ambos; Engels, mais adepto da luta ativista; Marx, a pressentir a necessidade de um estudo mais profundo, como haveria de provar mais tarde nas obras posteriores. É neste clima que surgirá a figura do comunista, evoluindo do ‘comum’e da sociedade igualitária.
 
Atenção ao final, com a fusão do aplauso da criação do Partido Comunista com o genérico e o inconfundível tema de Bob Dylan, Like a Rolling Stone, a introduzir as imagens do crash de Wall Street, Che Guevara, Mandela, o Muro de Berlim, o movimento Ocupy Wall Street… Ou seja, ficamos já preparado para I Am Not Your Negro.
 
Paulo Portugal


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