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«Split» (Fragmentado) por André Gonçalves

Houve tempos em que acreditávamos globalmente e genuinamente que M. Night Shyamalan fosse o novo profeta de Hollywood, seguindo-se assim a Hitchcock e a Spielberg. Como Hitchcock, Shyamalan fazia questão de aparecer por breves segundos nos seus filmes, e de saber manobrar o suspense como poucos dos seus contemporâneos. Como Spielberg, Shyamalan não se importava em trazer até às últimas consequências lógicas a chamada "lamechice" dos seus argumentos (no caso de Shyamalan, saídos diretamente da sua mente ligeiramente perturbada). Pesem estas duas grandes influências, os seus filmes não poderiam ser feitos por mais ninguém, sendo precisamente gozados pela sua unicidade, pelo que arriscava ser.

Para quem viveu no planeta Terra na última década, saberá o resto da história. O crescente "bullying" feito pelos detratores eventualmente apanhou o autor e o seu ego, com os crescentes falhanços e encomendas mal embrulhadas a partir de "A Senhora da Água" a desacreditarem até os mais fiéis do seu cinema (e a elite dos "Cahiers" que a certo ponto, e em boa hora, o acudiu). E eis que em 2017, voltando pela primeira vez ao topo das bilheteiras desde 2004 ("A Vila"), chega a narrativa de ressurreição norte-americana. Os americanos adoram de facto ressuscitar "personas non gratas" (Mel Gibson é outro exemplo emblemático este ano) quase como mostra de superioridade moral, de autoridade, mas com o realizador de origem indiana, sempre sentimos que a sua condenação tinha sido antecipada. Poderia o seu regresso monumental ser também fruto de um efeito de rebanho da crítica? Bem, não é sempre?  

Dito isto, convém realçar que "Fragmentado" não teria provavelmente existido sem antes ter existido uma certa incursão feliz pelo "found footage". Com a câmara mais solta desta vez, o realizador consegue voltar assim à tela com que desenhou e imprimiu as suas grandes obras-primas (i.e. "O Protegido" e "A Vila") e os seus maiores sucessos de bilheteira (i.e. "O Sexto Sentido" e "Sinais"). Bastará assistir aos primeiros 5 minutos, ainda com o nome do realizador por revelar nos créditos, para vermos as marcas originais de um dos últimos autores marcantes do cinema americano contemporâneo: diálogos particularmente humorados e ligeiramente desajeitados do ponto de vista social enquadrados num plano de conjunto. Podíamos quase garantir que estaríamos no início do século, não fosse a referência inevitável às redes sociais online... 

Claro que esta ponte ao passado vai eventualmente tornar-se vital no desenrolar de uma película sobre distúrbio de múltipla personalidade. Indo um pouco à história, contada tintim por tintim no trailer, como vem sendo mau hábito: Kevin Wendell Crumb (James McAvoy, a partilhar a luz com Shyamalan) é um homem que se desdobra em 23 personalidades diferentes; após um incidente no trabalho, decide raptar três jovens, no que poderá vir a ser um último ato para que uma 24ª personalidade (demoníaca, sobrenatural) apareça - de certo modo fazendo jus à tese da doutora que o acompanha  (igualmente excelente Betty Buckley) que estes indivíduos tenham destrancado algo no cérebro que os torne superiores a nós, comuns mortais de uma só personalidade. O que Kevin ou uma das 23 personalidades não conta é a presença de Casey Cooke (para não variar, impecável Anna Taylor-Joy), uma jovem que esconde também os seus segredos paralelos. Mais "Shyamalanesco" que isto ficará impossível - e antes que alguém pergunte por uma criança, ela está lá, em modo "flashback", a fazer aquele crescendo com o presente, a encontrar-se com ele no final. Shyamalan a auto-referenciar-se, em mais maneiras que uma, sim, algum problema?  

A confiança renovada já vista no anterior "The Visit" surge aqui para, lá está, refazer o passado, e para fazer o espectador voltar a acreditar no impossível nesta nova romantização dos fragmentados/fragmentáveis, onde o compositor West Dylan Thordson tem a díficil e inglória tarefa de ombrear com James Newton Howard e acaba por escapar vivo e de pé. Volta-se a ver o amor que o realizador de origem indiana nutre por "Alien" (desta feita naqueles corredores subterrâneos prontos a esconder a presença do mal),  e volta-se a acreditar no impossível. Para este amador, é o suficiente para sentir que está aqui o primeiro grande filme de 2017.

LIGEIRO SPOILER: Se a piscadela de olho revelatória pós-título final parecerá à primeira vista repescada supérflua, olhe-se novamente para o ADN da história: à imagem do seu protagonista perturbado, a própria obra revela apenas a sua identidade só quando o seu nome surge à segunda vez, estampado no ecrã. Bem-vindo de volta!

O melhor: sentir que Shyamalan está definitivamente de volta, e que preservou a sua loucura; o trio James McAvoy, Betty Buckley e Anna Taylor-Joy.  

O pior: é um filme que, à imagem da Teoria de Autor, precisa de ser visto contido numa obra, e não isoladamente. 

André Gonçalves



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