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«Bone Tomahawk» (A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas) por Duarte Mata

O western, enquanto género, está morto. Foi Clint Eastwood quem assinou o epitáfio com a campa ao pôr-do-sol com que encerrava Imperdoável. Tudo o que se lhe seguiu, de Jarmusch a Tarantino, passando pelos Coen, foram meros exercícios, pequenas variações do tema com o propósito de acrescer marcas pessoais dos respetivos cineastas que os realizavam, desconstruindo e reconstruindo o Mito do Velho Oeste de formas anacrónicas muito sui generis.

Bone Tomahawk ainda não é a exceção à regra. O título português (A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas) é já bastante denunciante da intriga: uma mulher é raptada por um grupo de canibais, sendo a cavalaria que a segue constituída por apenas quatro cowboys, cada um com o seu feitio particular. Gradualmente, a busca pelos longos desertos (registados numa fotografia acastanhada de Benji Bakshi) revela-se uma jornada suja, livre de romantismos e com um realismo cru no tratamento da violência.

Comecemos por dizer que não nos lembramos de um exercício “westernizado” onde aquela que é a marca cinematográfica mais caraterística do género, o plano americano, esteja tão rejeitado (há-o, sim, mas é essencialmente proveniente de planos subjetivos de personagens sentadas em saloons ou então em cenas onde o coldre não está envolvido, como aquela em que o xerife corta pão), para prevalecerem planos de meio e grande conjunto, como se fosse o cenário a definir as intenções das suas personagens e não, propriamente o ângulo da câmara face às mesmas. No entanto, se tal vos não parece possível e é de eixos que querem que falemos, reiteramos o que John Ford dizia “Não faço picados nem contrapicados porque não sou uma ave nem uma serpente” e contrapomos isso ao homicídio bárbaro presente no primeiro plano, registado num contrapicado bem definido. Dito de forma sucinta, A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas é um filme sorrateiramente visto por abutres e cascavéis.

Não há dúvidas de que o estreante S. Craig Zahler demonstra lidar bem com o tempo e espaço, filmando uma cavalgada pelo deserto como uma marcha fúnebre, num suspense mórbido bem delineado e com o tempo de cada plano conveniente. A ausência de referências que constitui este seu trabalho (tem-se falado de Tarantino, mas a sua selvajaria ainda não atingiu este estado tribal) leva a um filme de fantasmas não atormentado pelos espetros do cinema que passou. É esse esvaziamento que nos percorre a mente durante a visualização, tal qual uma aragem no deserto que tanto pode ser série B, como terror, como thriller, mas nunca explicitado ao espetador. Se o western já não passa de um exercício, este é mais curioso, enigmático e competente do que ao que se esperaria numa primeira obra a aventurar-se por ele.

O melhor: A ausência de referências, a abordagem crua ao género western.

O pior: Alguma falta de ambição e desafios nesta jornada.

Duarte Mata



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